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Êxodo I

  • Foto do escritor: Lucas Antero
    Lucas Antero
  • 22 de ago. de 2024
  • 2 min de leitura

“Não, o tecido do espaço tempo não é dobrável, ele é circular, uma espiral" ele disse para mim à medida que eu começava a desaparecer.  

Só  então eu entendi, mas talvez fosse tarde demais para mim naquela realidade. Eu perdi tempo demais tentando ser, tentando ajuntar vitórias para provar a utilidade e não acabar sozinha. Mas antes de eu desaparecer como se houvesse lido meus pensamentos ele disse: 

"Mas você está sozinha, o problema é que você se importa demais, e agora veja onde está"  

E as inscrições esculpidas na pedra daquela igreja  ecoaram em minha mente a medida  que eu me tornava amorfo  em um mesmo novo corpo meu: "A alegoria das qualidades da fé cega é perfeitamente compreensível" 




Eu me hospedei em um hotel 5 estrelas porque sabia que aquele quarto me daria a vista para a igreja, e a distância mais curta dela. Tudo isso como se eu já houvesse feito aquilo antes; só não conseguia me lembrar se havia conseguido encontrar as descrições escondidas no túmulo de Aleijadinho. Ou traduzi-las do latim corretamente.  


Os remédios surtiram efeito, a quantidade imensa de álcool também. Eu conseguia pensar somente em uma coisa: eu não queria partir como Larissa partiu: "Corpo encontrado em quarto de hotel" Alguém á havia assassinado ou a melhor explicação era que ela tinha tirado a própria vida. Mas e se esse for meu destino, por isso tudo fica voltando quando morro? Por que eu fui escolhida para fazer isso? Viver requer força de vontade, porém morrer requer ainda mais. 


Tranquei a porta e me olhei no espelho, avaliando meu corpo tosco, repugnante e minhas feições nada atrativas, com o álcool ajudando na conduta autodepreciativa. Comoporquecomo ? Estou tentando encontrar Deus ou as respostas? Estou tentando viver ou morrer? Estou tentando justificar ou aceitar? 



E se eu for o fantasma que assombra essa casa antiga de Ouro Preto, indo e voltando pelos últimos cômodos que estive antes de partir?  O vento congelante sopra e começa a sibilar pelas frestas da janela de madeira pintadas de azul. Eu observo na escuridão as luzes mecânicas na rua e sinto vontade de perambular pela cidade noturna, descobrindo segredos apenas vistos à noite. E agora estou sozinha, vazia de mim e cheia de significância da cidade. Com uma canção de ninar a lua tenta me fazer adormecer. A pequena tatuagem de cruz arde do lado esquerdo de minhas costas. Destranco a porta do quarto e começo a caminhar lentamente; a madeira da casa velha rangendo aos meus passos, elucidando o peso de minha existência, quando saí do casarão as luzes brilhavam ainda mais forte, o pôr-do-sol coloria o restante do horizonte. Então eu caminhei, ébria, até meus pés sangrarem, de joelhos caí sobre as pedras lisas do asfalto, ébria uivei para lua. Gélida, sucumbi ao desejo de arder e ao adentrar na floresta fria e neblinosa, passei pelos galhos espinhosos, finalmente sob a árvore centenária caí outra vez, como uma maçã que sangrava, adormeci, aguardando e florescer da manhã, mas antes precisava passar pela podridão própria de minha madrugada e me perder antes do amanhecer.



 
 
 

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