Confissões
- Lucas Antero

- 1 de abr. de 2024
- 4 min de leitura
"Eu te esperei por todos esses anos assim como você também esperou por mim, mas nenhum de nós teve coragem de se aproximar do outro"

A primeira pergunta que sempre atormenta minha mente é: "Por que ninguém nunca teve coragem de me amar romanticamente?"
Talvez porque eu seja essa pessoa de feições ridículas, minha feiura transborda; ou então eu tenho bastante medo de ferir alguém ,de ser ferido e de não superar as expectativas da suposta pessoa que me amaria. Acho que sou apenas uma pessoa feia mesmo que precisaria de um milagre para ser amada.
Quando me dou conta já estou me sentando naquela poltrona feia, porém confortável da sala de consulta. Ela está de frente pra mim com sua postura alinhada, ereta e suas pernas cruzadas, uma caneta e um bloco em mãos, esperando que meus movimentos toscos terminem e eu me aconchegue na poltrona de cor vômito. Aposto que ela deve contar para alguém o quão feio são seus pacientes, principalmente eu. Fico em silêncio por uns cinco minutos e ela me observando, odeio quando ela me vê assim no estado que estou: Vazio, forte, Vazio.
-O que tem pra me contar hoje? -Ela pergunta.
-Não muita coisa!
-Pode falar o que quer que seja, qualquer coisa, mínima que for, o que te chateia por exemplo, como foi o dia de ontem, o tempo, o que viu até chegar aqui, como se sentiu...
Eu fico mais uns dez minutos calado, contando quantos livros tem em sua estante, tentando organizá-los mentalmente por ordem alfabética.
-Animação suspensa também é uma forma de mostrar como está se sentindo.
-É!? -Eu respondo sarcasticamente. Ou ela não percebeu, ou então fingiu não se importar.
-O que quer me dizer hoje Lucas? Não tenha medo nem culpa de falar o que precisa ser dito. Sei que você é tímido, mas essa consulta aqui é pra te ajudar e não te julgar. -Ela diz, puxando a cadeira pra mais próximo de mim - Então Lucas!?
Eu gostaria de dizer realmente o que penso. Mas se eu falar, ela vai me achar um idiota por ser homem e ter esse tipo de problema. Se eu disser que me acho feio e todas as outras pessoas também, por isso meu plano é um dia ser capaz de contar todas as minhas costelas, assim ao menos eu não seria a pessoa mais bonita, mas pelo menos a mais magra eu seria, provavelmente ela mandaria me trancar em um hospício. Se eu disser que as vezes sonho que estou me deitando no chão e a grama me engolindo me fazendo desaparecer ela receitaria remédios de cor amarela. Então eu teria de contar que as vezes sonho em escrever palavras em minha perna com aquele bisturi médico nº11, que as primeiras palavras seriam: estúpido, vazio, desaparecer. Que eu gostaria também de ver meu sangue saindo por pequenos sulcos em minha pele, assim eu saberia que estou ficando puro, que eu poderia sangrar bem próximo a virilha assim eu não precisaria que ninguém se apaixonasse por mim, porque eu não mereço ser amado porque sou um gordo imundo e feio. Teria de contar também que eu realmente preciso desaparecer, mas antes deixar muito dinheiro pras pessoas, assim eu não seria mais um fardo. Ainda contaria que as linhas em minha perna são porque a ardência destes sulcos sangrentos me acalma, por isso faço tatuagens, a dor é uma punição e a ardência é uma purificação. Ela também mandaria me trancafiar e me encher de remédios que transformariam minha mente uma uma neblina e meu coração em uma bomba. Se eu disser ainda que o único motivo de eu continuar vivo é porque tenho medo de não haver nada do outro lado, medo de Deus me odiar pelo que estou fazendo, ela provavelmente iria rir da minha cara e me receitaria Carbonato de Lítio. Então eu diria que é por isso que odeio quando ela me vê assim: completamente vazio, forte, vazio, estúpido, inútil, vazio, forte, vazio, tímido, vazio, forte, vazio.
Então eu apenas conto sobre alguns de meus poemas tristes e pensamentos vazios, ela me diz para me arriscar mais em ser eu mesmo, em não ter medo de me relacionar com as pessoas, não ter medo decepcioná-las. Então eu vou pra casa, e minha psicóloga achando que está me salvando aos poucos. Mal sabe ela que as paredes descascadas de meu quarto arranham minha derme a noite, regurgitam em meu cérebro, fazendo-o doer, essas mesmas paredes servem de ponte para as aranhas ligarem suas teias até a mim, me sufocando.
Eu poderia ao menos uma vez comer deste fruto, rasgar-me depois como autoindulgência, ver esta maçã agarrar em minha glote. Então escreveria em minha pele: Vazio, forte, vazio, feio, forte, vazio, tímido, medo. Então finalmente eu veria a ponta dos ossos despontando sob a pele da minha pélvis. Então ficaria ao lado de Deus, mesmo que por alguns instantes para ser julgado, eu me veria fora de mim, entendendo o que sou e o que fui; eu contaria os ossos de minha costela que sangra, avermelhando a maça em minha glote, por fim eu reencarnaria no corpo daquela garota e por fim, por não ser homem, eu tentaria mais uma vez as palavras agora justificadas por gênero: Vazia, estúpida, forte, vazia, inútil, vazia. Então eu finalmente sangraria quieta, até a hora de minha morte.(Amém)






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