Jardim de mármore
- Lucas Antero

- 28 de jun. de 2024
- 2 min de leitura
"O que essa pequena tatuagem de cruz no lado esquerdo de minhas costas pode mostrar? A imortalidade das tormentas da alma? Um dia serei capaz de contar as costelas ,sentindo-as nas pontas gélidas de meus dedos elétricos enquanto o fraco sol de inverno aquece as vertebras, elucidando êxodo de mim."
Era 2:17 da manhã quando acordei assustado depois de um pesadelo. A medida que meus olhos se ajustavam à penumbra de meu quarto, a silhueta dos objetos presentes nele se tornava mais real e não os contornos amorfos e fantasmagóricos. Sabia que não conseguiria voltar a dormir, não com minha mente a milhão, muito menos depois do pesadelo. Há tempos que venho tendo o mesmo pesadelo dividido em duas partes desconexas: A primeira parte, Eu ia em direção ao mar de Copacabana, passos lentos, de costas para as ondas e as poucas pessoas que eu tinha conexão na vida, acenavam de longe e a medida que o sol nascia me afastava cada vez mais da enseada, sem ouvir os gritos, apenas a água gélida transportando meu corpo para mais longe de mim, de todos, até que uma onda me puxava para baixo, minha cabeça se chocava contra os corais e aquele peixe pequeno, laranja com listras brancas, pronunciava a palavra em latim Nemo (que significa ninguém). E eu sorria, porque finalmente entendia que me fora concedido a misericórdia da não existência, a fuga da necessidade de viver o sonho, na verdade a histeria coletiva, de sermos Pessoa enquanto seres, com ambições, segredos, traições, desamor, dor. Apenas com a expectativa de nos tornarmos importantes, trazendo sentido ao sopro do barro em nossas narinas. A segunda parte eu estava descendo uma via de mão única em alta velocidade, fazendo as curvas sinuosas da estrada, no meio da noite com minha bicicleta. Então meu corpo é arremessado brutalmente e eu voava do desfiladeiro, do abismo que me aguardava, e meu corpo aterrissava lânguido em um jardim de mármore, com esculturas de anjos de pedra, alguns com as mãos sobre o rosto chorando, outros em posição de guarda, vigiando e velando pelas lápides e os mortos ali sucumbidos. Todos esses anjos estavam cobertos por uma espécie de trepadeira e musgo que os coloriam de um verde fantasmagórico, melancólico, sepulcral. Quando em rompante as trepadeiras espinhosas começam a crescer em mim, violentando minha derme de dentro para fora, meu sangue gélido escorrendo e regando os musgos, é ai que eu acordo.

Agora de pé no meu quarto observo as luzes mecânicas e cintilantes no breu do mundo lá fora. "Eu estou aqui, eu estou aqui agora!" é o que digo para mim mesmo tentando voltar a realidade. Mas na verdade não estou. Onde realmente estou é no espaço entre a explosão cataclísmica e o ar quieto e gélido, nem vivo e nem morto, apenas a espera da frente fria, ou de algo cotidiano que me arranque disso. Mas ao invés meu peito aberto sangra plasma, reduzindo minhas existências em simples temas abstratos: casa, hobbies, amores, útil, família. São 3:27 da madrugada, e esse corpo aqui, a mercê de pré-julgamentos alheios, sucumbe ao ópio, languido adormecendo, sendo punido de alma-corpo por apenas ser "Humano, demasiado humano"






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