Unloveable
- Lucas Antero

- 7 de nov. de 2021
- 3 min de leitura
Então ele me disse: Você não sabe mesmo né, a sorte que tem por ser quem você é agora, e estar onde você está em sua vida?
"Se seu pai visse a bagunça que se tornou ele não iria gostar muito do que iria presenciar."
"Você se lembra de quando teve dois ataques de pânico no banheiro de casa, um seguido do outro?"
"Uma noite quando estávamos bêbados, você escreveu não se esqueça em nossos braços..."
..."Eu sei que acabou, sei que a vida adulta chegou"
Era madrugada de domingo, o céu começava a ser preenchido com nuvens densas, logo cairia uma tempestade de verão, mesmo assim a brisa ainda soprava fria ela janela do quarto de Juliana que agora encarava seu reflexo seminu no espelho. Juliana permanecia inerte, absente de si mesma, imersa e abulia, tentando encontrar dentro de seus olhos aquela que foi em outrora para talvez sentir-se como ela; mas encontrava a silhueta amorfa do qual logo se afogava nas lágrimas que surgiam. Ela sabia que havia se submetido a uma falsa primavera, cheia de flores perfumadas, suspiros profundos e sonhos oriundos das manhãs ainda frias vindas da transição Inverno-Primavera e da completa quietude de sua alma, e ainda de uma esperança tão original e fresca que seus pulmões ardiam.

Mas agora seus olhos inchados, sua garganta seca e a porfiria cutânea ainda a atormentavam, mesmo assim repetia para si mesma: "O sol é apenas uma estrela, o sol é apenas uma estrela, o sol é apenas uma estrela!"
Havia prometido para si mesma que essa madrugada seria a ultima, porque sabia que todos os dias anteriores, durante todos esses oito anos ela havia escolhido se levantar e exercer as funções do seu dia a dia enquanto estava a procura de uma razão e durante todo esse período havia encontrado algo transcendental, e isso também havia se esvaído de se corpo, já estava cansada. Julia sabia, o que estava fazendo era narcisista, não se importava mais, há muito tempo a origem de seus sentimentos era a mesma e as situações mecânicas do quotidiano alternavam ao longo dos tempos seguindo a mesma regra pré-determinada de cada existência, para ela talvez isso já estivesse destinado a acontecer.
Juliana andou pela casa, observando seus triunfos espalhados pelas paredes e móveis, suas histórias, seu charme nas fotos, e questionou a si mesma em voz alta "Será que é normal o ser humano passar por períodos vazios em sua vida, ou estou destinada a ser assim?"
Do que adianta todos os triunfos e conquistas se ainda adormece sozinha a noite? Do que adianta ser encantadora se tem medo de amar? Do que adianta ajudar e dar tanto as pessoas se odeia a si mesma e não que ser ajudada? Do que adianta os triunfos se toda vez que ganha algo sempre acha que não merece nada disso? Essa madrugada estava abrindo os olhos de Juliana, ela havia presenciado acontecer com outras pessoas, agora que estava acontecendo com ela não era tão engraçado assim.
Aos 16 órfã, ainda querida por todos, ainda desejava poder ver uma fotografia, queria ser ingrata, "não se sinta mal por mim, sei que não sou amável desse jeito, mensagem recebida" - Pensa consigo mesma.
Havia começado a chover, Juliana gargalhava porque começava a aceitar seu destino, caminhando descalça na varanda enquanto a chuva molhava seu corpo, ela dançou e gargalhou porque tudo começou a ruir e ela sabia o que viria depois...






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