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Uma carta para Deus.

  • Foto do escritor: Lucas Antero
    Lucas Antero
  • 6 de dez. de 2023
  • 3 min de leitura

Sempre achei que sangrava pelas razões corretas, o que Deus realmente me diria se viesse pronunciar algo pra mim neste exato momento? Minha cabeça no vidro frio da janela e observando a chuva lá fora no jardim de casa. A noite anterior parecia ter sido um sonho borrado e confuso, mas eu sabia que era real porque o colar ainda estava em meu peito e a faixa ainda em meus pulsos, apenas ele que não estava em casa. Eu desejava tanto que ele estivesse aqui para que me impedisse de sangrar, mas tudo que permaneceu fora as cobertas amarrotadas no sofá e um bilhete na porta da geladeira. Eu queria me mover, ir lá fora, cuidar das plantas, varrer o jardim, mas meu corpo apenas quer ficar quieto, desaparecer, flutuar na atmosfera como um espírito qualquer, esse mesmo espirito meu também quer ser perfeito, ser suficiente para as pessoas, agradar a todos, mas existem abismos nos cortes em minha pele e cada vez que os observo eles sussurram para mim que se sentem sozinhos, que minhas outras culpas e imperfeições deveriam estar fazendo companhia nos cantos ainda intocados de meu corpo, que eu deveria sangrar uma cascata para expurgar minha sujeira e imperfeições, que as respostas sempre estiveram em meu subconsciente, que eu apenas tenho medo de acreditar nelas, que Deus me ama mas não o suficiente para me salvar, tudo pelo que fiz, pelo que sou, pelo que não sou, pelo que breve irei fazer para não me sentir culpada. 

Então já estava tudo decidido. Meu medo era apenas Deus me odiar pelo que eu estava prestes a fazer. Eu estava cansada de sangrar até antes do amanhecer e participar do cotidiano como uma pessoa normal pela manhã, trabalhar como se nada houvesse acontecido; cansada de deixar meu corpo dormente com o vinho, cansada de deixar minha família preocupada. Ainda mais cansada de na maioria das vezes mentir e fazer com que todos de minha família acharem que tudo está bem. Meu Deus, como estou cansada de fingir que não me sinto sozinha e permanecer no mesmo lugar por medo. Então sentir saudades de meu pai e depois entender que ele ter partido foi o melhor, sentir saudades de minha mãe, sentir saudades de mina avó; cansada de fingir que não tenho medo de saber que um dia vou morrer, cansada de saber que Deus me ama, mas não suficiente para ser salva. Cansada de tentar desistir e tentar dar um fim a tudo, mas não conseguir por ter medo de morrer. Eu não quero morrer, quero apenas escapar dessa condição humana que pra mim foi dada com mais intensidade: a dor, a perda, o medo. É por isso que sangrar é minha forma de tomar controle sobre a vida que tanto me traz tudo isso, porque assim flerto com a única coisa contraria a ela, a morte, até porque a vida quer que morramos em seu tempo e não antes. A ideia de não decepcionar mais ninguém, não preocupar mais ninguém, a ideia de que o mundo se afastaria de mim como uma benção, parecem tão atraente. É verdade que nunca namorei, que talvez nunca tenha me amado romanticamente, então qual seria minha importância? Me perdoe Deus, eu sempre amei você e sabes disso, mas essa noite antes de fazer tudo, apagarei as luzes porque depois de muito tempo vou chorar e dizer adeus. Diga alguma coisa Deus, estou desistindo de mim...



 
 
 

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