Penhascos, desfiladeiros e outros sonhos de fuga.
- Lucas Antero

- 6 de jul. de 2022
- 2 min de leitura
Belo Horizonte,
Segunda-feira, 04 de Julho de 2022.
Ah, pai. Se você soubesse como estão as coisas por aqui! Os jornais dizem que os russos estão atacando a Ucrânia e melhor deixarmos assim, caso contrário iremos começar uma guerra pior que as duas últimas duas juntas. O mundo ainda gira e como podemos ser tão cruéis? como já dizia aquela frase: Homens com tédio criam guerras para se divertirem!
"ser gentil requer estômago" como dizia The Smiths, minha banda favorita - acho que você nunca soube disso-.
Mas estou escrevendo por outro motivo.
Você já flertou com a morte? Digo, inclinando-se para o seu lado, deixando-a acreditar que meu corpo é totalmente dela, dançando conforme seus passos, praticando seus rituais, deixando o torpor fazer com que meu corpo ébrio e lânguido fique dormente por algumas horas durante a noite e por fim, antes de adormecer, no último segundo com ela acreditando que a abraçaremos, adormecemos para no dia seguinte acordarmos e praticar as nossas obrigações. Era divertido no começo, quando sangrava, sentido que estava exaurindo toda a culpa, dando lugar a ardência e a autoindulgência. Mas minha vida em seus tropeços e escolhas errôneas - por estupidez, diga-se de passagem - me trouxeram a caminhos tão diferentes, mas no final do dia a essência sempre será a mesma X=x, que também fiz uma tatuagem - olha só!
Você, assim como algumas estrelas que enxergamos, já estão mortas há algum tempo, mas te escrever me alivia, me deixa com a sensação de "limite a a irrealidade da realidade".
Conheci uma pessoa, nada de mais. Desde então que provei um pouco do que algumas outras nuances da vida podem ser, se tornar, venho sonhando com penhascos, lugares bastante altos. eu os chamo de sonhos de fuga, parafraseando um pouco Schopenhauer, então comecei a buscar estes lugares, onde pudesse avistar tudo lá embaixo, encarar abismo e ele me encarar de volta com toda a sua imensidão, seu silêncio, seu eco, e saber que tudo poderia acabar em segundos, E por breves instantes lutar contra a gravidade e o olhar arrematador do abismo e recuar alguns passos, uma espécie de fuga da realidade. Eu sempre viajo sozinha, gosto de caminhar, o silencio orbita a presença de meu corpo nos espaços. tinha esse cara, dono do restaurante onde almocei em algum domingo depois de fazer uma trilha, um dos melhores almoços, tentei de todas as formas demonstrar minha gratidão de como tudo estava sendo fantástico, e percebi que sempre tentou ser gentil com tudo que vejo, para ver se me encontro e te reencontro, mas vejo o vazio e a gratidão das pessoas, o que já basta, mas sei que nem todo o mundo é assim.
Bem... de volta a pessoa que conheci, acho que ele nunca me viu sangrar, assim como ninguém, nem mesmo você.
Não quero me alongar muito, te conto na próxima carta, mas digo que acho que é hora de mudar, ser uma nova pessoa, é engraçado como olhar para o abismo por tanto tempo e muitas vezes pode transformar a substância de uma pessoa, como disse, o vinho já tomou conta de minha corrente sanguínea e talvez esteja escrevendo a esmo( antes mesmo de sangrar...
Até a próxima,
L.






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