OUTONO.
- Lucas Antero

- 20 de mai. de 2020
- 2 min de leitura
O vento soprava estranho na varanda de casa naquele dia. adormecida na cadeira de balanço. Acordei assustada quando beijou minha testa, meu livro caiu, o marcador saiu da página, meu cabelo uma bagunça, você gargalhou, quase deitou no chão de tanto rir, depois mostrou a foto que havia tirado de mim enquanto dormia, ainda confusa e sonolenta, bocejei e você me beijou novamente e disse "Ta vendo, essa foto deveria ir para um museu de artes"
"Então você está me chamando de velha!? - Perguntei enquanto pegava meu livro do chão.
"Velha e louca!"- Você disse enquanto fazia cócegas em minha barriga.
Derrubei o livro no chão novamente, você o pegou: " Vejamos o que está lendo" Ao mesmo tempo que amo, odeio o quão intrometido é.
"Objetos Cortantes de Gillian Flynn" - Você ponderou um pouco e depois perguntou- "Este livro é sobre o que?"
"Sobre uma repórter que vai investigar um crime em sua cidade natal.." - arranquei o livro de sua mão - "Mas essa repórter tem um passado muito obscuro" _ Eu disse, tentando fazer uma cara de suspense e enfatizando a palavra muito.
"E que passado é este?"
"Bom, você tem de ler para descobrir!" - Eu disse debochadamente.
"Você sempre lê coisas assim?"
"Assim como? - Perguntei, mesmo sabendo a resposta.
"Coisas tipo, sei lá... Densas, depressivas!?
Você sabe que odeio esconder a verdade de você, mas ainda não podia te contar a verdade, não ainda, e naquele dia, ao invés de lhe dizer nem que fosse o mínimo, apenas fiquei em silêncio olhando para o telhado colonial até que você decidiu deixar este assunto de lado, mesmo sabendo que tinha alguma coisa importante que eu estava escondendo, e resolveu pegar uma xícara de café pra mim.

Vou lhe dizer uma coisa que você não sabe sobre nós, pessoas nascidas em novembro: Somos essencialmente quietas, quase dormentes, sentimos muito, mas as vezes somos pessoas cataclísmicas. Eu consigo guardar tantas coisas para mim mesma, absorvo como uma esponja, a explosão como uma supernova vem muito tempo depois, quando temos que derramar a taça que já está cheia, na maioria das vezes esta explosão é silenciosa porém vibrante; ela vem em forma de ações cotidianas que transformamos em coisas espetaculares, como cantar, no meu caso escrever uma poesia, e fazer as pessoas se sentirem bem.
Me lembro de uma tarde fria de outono, estava em um de meus dias melancólicos,vazios. Apenas queria me deitar no quintal de casa, onde ainda havia sol, para que ele me aquecesse. As folhas caiam sobre mim,cobriram-me, o imenso céu aniquilava minha existência vazia com sua imensidão. Eu não queria mais lutar, não queria mais pegar o que era meu por direito, simplesmente não queria. Meu corpo imerso em abulia como uma espécie de morfina, eu queria apenas flutuar como aquelas folhas e depois cair no solo, permanecer ali,como uma natureza morta, observando o céu. Naquele momento percebi que mais do que nunca preciso de seu abraço, mas ao invés de me levantar e buscá-lo, permaneci deitada ali, enquanto meu corpo esfriava.






Comentários