Os cacos de vidro em meu crânio
- Lucas Antero

- 3 de mai. de 2021
- 3 min de leitura
A melhor parte dessa mentira foi acreditar que um dia te amei! Me perdoe se escrevo algumas palavras ridículas e desconexas, é que escrevo a ritmo do peito e agora ele tem pressa.

Ah, mãe, se ainda estivesse aqui talvez você pudesse me abraçar e me perdoar pelo que fiz e não fiz para que pudesse me manter vivo. As pessoas que eu talvez tenha magoado, as vidas que poderia ter salvo, as histórias felizes e heroicas que eu poderia ter contado, e hoje sequer consigo ter uma coleção de sentimentos que Ex-parceiros(a) deixaram nesse meu peito vazio.
E o que me resta agora se tenho medo do amor? O que me restará se minha existência depende da aprovação e gosto dos outros; caso contrário adormecerei ainda mais sozinho em meu quarto escuro e vazio? O que me resta se não sou a perfeição e não consigo ser útil aos outros? Ainda sou real? Se sou tão engraçado e bondoso, porque ainda permaneço sozinho?
Ah mãe, o paraíso sabe o que fiz e agora sou ainda mais miserável! Antes do solo cair sobre meus olhos eu poderia me redimir no altar de mentiras e deixar que cortem minha própria cabeça para que o paraíso olhe de volta em meu olhos, meus pés descalços, dedos calejados, e me perdoe por ainda as vezes me sentir furioso porque você, papai e vovó morreram? Mas essa noite é como qualquer outra, e adormecerei com meus fantasmas e ansiedades transformando meu trauma e minhas ações em uma divina comédia.
Perdoe minhas palavras tortas e balbuciantes. Estou tremendo, á agua está fria, meu crânio tenta expulsar objetos cortantes e estilhaçados de meu cérebro, a realidade tenta reconstruir alguma outra nova história com o que restou, e o sol tenta aquecer o que restou de meu corpo, e o vazio ecoa pelas paredes quando pronuncia: "Seja bem-vindo ao limbo"
Meu corpo agora flutua, meus pensamentos vazios doem, os estilhaços adentrando ainda mais em meu cérebro, fragmentos de realidades que nunca vivi por completo, livros que nunca terminei de ler, situações em que deveria ter dito não, outras que deveria ter dito sim, medos que deveria ter enfrentado; mudanças que deveria ter feito, coisas que eu deveria ter abdicado, agora pesam em meu crânio, em minha derme levando meu corpo frio a chão. Desfazendo de minha própria essência, me desconstruindo, aniquilando as únicas certezas que tinha, tornando-me uma página em branco, movida e reescrita à desejos alheios, esse desejo de existir dentro de mim, apenas existindo, sem esse monólogo interno, vai afundando meu corpo ao chão a medida que os estilhaços rasgam tecidos cerebrais e apagam memórias.
Agora vazio, frio e sob o efeito de morfina, meu corpo lânguido e separado de sua carcaça original vai reconhecendo o cantos de minha casa novamente, apenas para poder perdê-los e redescobrir aquilo que eu havia enterrado e entender mais uma vez Que X sempre será igual a X. Trôpego me jogo no sofá, ergo meu braço direito em direção a lâmpada, a luminosidade queima meus olhos, o Whisky minha garganta, apenas com força para pronunciar o enunciado de minha vida "Sei que não sou amável, não precisa me dizer... Não tenho muito em minha vida, mas pode levar é tudo seu!"
E antes de adormecer, minha mente fragmentada tenta encontrar uma lógica ao que acontece comigo e apenas consegue pensar mesmo sabendo que acabou, mesmo sentindo o solo caindo em meu corpo: X=X, X=X, X=X, X=X, sempre será!






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