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NADANDO DE VOLTA PARA CASA

  • Foto do escritor: Lucas Antero
    Lucas Antero
  • 3 de ago. de 2020
  • 2 min de leitura

Você apenas ficou em silêncio quando gritei que odeio o que minha vida se tornou, depois olhou para mim fixamente, incrédulo, quando você gritou que minha vida era fácil demais e eu lhe mostrei meus pulsos.


O que esperava ao ver meu semblante pela primeira vez? O que esperava depois de todos estes anos, depois de tudo que passamos, depois de tudo que eu passei? Ainda acredita que como um cachorro fiel ainda fizesse tudo? Ainda espera que o mínimo de feição não se altere em meu rosto depois de tudo o que eu vi, depois de toda a esperança que eu ainda sempre reerguia como uma fênix ser destruída pedaço a pedaço toda vez que fazia aquilo?


Não existe nada aqui, não mais! Tudo foi se extinguindo aos poucos enquanto a tarde se esvaía com a brisa de inverno que esfriava meu corpo, e com minhas mãos gélidas abracei-me tentando me proteger. Os carros continuavam como vultos velozes, fantasmas que poderiam muito bem tirar minha vida, fantasmas luminosos como as luzes cintilantes que ainda existem dentro de meu peito. "Não existe nada aqui" Sibilou o vento ao passar pelas minhas narinas ao adentrar meu corpo oco. Não existe nada mais aqui, apenas o EU que ainda prossegue sem razão alguma a não ser completar um ciclo preciso do cosmos.



Já em casa, sozinha, meu corpo inerte, em estado catatônico, desprovido da única rota de fuga,apenas eu e o silencioso e dolorido frio. Você tirou a esperança de mim, e agora tiro a únicas coisas que precisaria de mim, minha utilidade, minha vontade que já se extinguia lentamente e minha sanidade. Enquanto a água morna preenchia a banheira eu deslizava a lâmina em minha perna esquerda. Enquanto você abraçava quem você ama, eu arremessava meu próprio corpo contra paredes e pilastras, enquanto meu telefone tocava, eu escrevia palavras tortas com aquele bisturi em minha virilha; Décima palavra escrita: Sanidade. Enquanto meu corpo vazio afundava na banheira, meu sangue colorindo a água, tornando-a rosada, eu retornando ao estado catatônico, deixando de existir como era antes, deixando de ser tudo o que sonhou para mim,apenas deixando de buscar a "Vontade de potência", você tentava derrubar a porta e me salvar, mas você está na casa errada, você não consegue mais me alcançar, não da mesma forma que antes, porque a medida que vou afundando e sangrando, estou nadando de volta pra casa, para minha casa, onde você nunca existiu em minha mente, em meu corpo, em minha vida. Então naquele breve momento, meu corpo completamente submerso, você parou de bater na porta, tentando me trazer de volta, e eu deixei de existir em sua vida, deixei de ser útil a sua vida, em meu ultimo suspiro senti um ser transcendental desfazendo o laço que nos unia, e soprando a quietude na casa em que eu não mais existia.

 
 
 

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