Naquela manhã.
- Lucas Antero

- 26 de jul. de 2020
- 3 min de leitura

Na manhã em que decidi me matar, o dia estava claro, quieto, minhas ideias alinhadas, mas resolvi não escrever uma carta de suicídio, não faria sentido algum, porque já havia há tanto tempo escondido todos os meus fantasmas e meus sofrimentos de minha família, que eles não entenderiam como eu poderia ter tudo isso em mim. Então apenas tomei meu banho e depois meu café.
Na manhã em que decidi me matar, mês esqueci completamente de todos os meus livros empilhados na estante, me esqueci de meu cachorro, me esqueci de todos os cadernos, manuscritos, e poemas que havia escrito. Me esqueci de fechar a janela do meu quarto, me esqueci de regar as plantas.
Na manhã em que decidi me matar, bem no momento em que peguei aquela caixa de comprimidos, me esqueci da responsabilidade de ser um homem em uma sociedade cheia de preconceitos e que diz que o sexo masculino não deve chorar, que devemos ser alfa.
Na manhã em que decidi me matar, enquanto alinhava os 38 comprimidos na mesa e o vento frio vindo de fora esfriava meu corpo, me esqueci de jogar fora as lâminas que usava para cortar minha pele.
Na manhã em que decidi me matar, lembrei que todos vamos morrer um dia, me lembrei quantas vezes não fui perfeito. Me lembrei de quantas vezes cortei minha coxa direita, me lembrei que meus pais morreram cedo. Me lembrei que a vida é este ciclo ridículo de Dor-Esperança-Dor até que nossas células se cansam ai morremos.
Na manhã em que decidi me matar, percebi o quanto é fácil dizer adeus quando se é sozinho e nunca foi amado. Na manhã em que decidi me matar percebi que sempre tive medo de relacionamentos, por medo de não agradar o outro e fazê-lo triste, infeliz, amargo.
Na manhã em que decidi me matar, percebi o quanto estava cansado de permanecer aqui e nunca mudar como pessoa, por medo do que os outros pensariam. Percebi o quanto estava cansado de ser julgado por todos, de ser medido pela masculinidade, cansado de tudo: de estar sozinho, de querer sempre ser forte, de nunca poder deitar no chão e chorar porque tinha apenas eu mesmo pra a sobrevivência, já que os outros tinha suas próprias preocupações e seria injusto de minha parte querer que se preocupassem comigo. (Alguém sentiria minha falta?)
Na manhã em que decidi me matar, tudo estava silencioso, frio, vazio, e senti uma imensa vontade de me cortar, de sangrar, de chorar até que meu pai viesse me abraçar. Senti vontade de ver pela primeira vez uma foto de minha mãe. Senti vontade de gritar para as paredes, soca-las.
Na manhã em que decidi me matar, senti a solidão fria como o vento em todos os cantos de minha casa. Na manhã em que decidi me matar, tomei os 38 comprimidos, deitei-me no chão, desejando ser mais magro. Naquela manhã, enquanto meus estômago doía e eu tinha convulsões, vi meus fantasmas me observarem e percebi que as respostas sempre estiveram em minha mente.
Na manhã em que decidi me matar, enquanto meu corpo esfriava depois da overdose dos comprimidos, eu lentamente desistia do sonho de ser uma pessoa.
Na Manhã em que decidi me matar, havia decidido dizer adeus a minha dor, mesmo sabendo estar causando aos que ficariam.
Na manhã em que decidi me matar,
Decidi dar adeus a tudo que conquistei e a tudo que nunca conquistaria, adeus aos meus sonhos, a tudo.
Na manhã em que decidi me matar,
O mundo estava mais caro, mais claro, mais limpo
E na mais profunda célula de meu coração,
Eu estava grato em partir.
Na manhã em que decidi me matar, estava dizendo adeus ao Deus que habitava dentro de mim, porém me esqueci e ele esvaeceu-se.
Naquela manhã eu soube que se sobrevivesse ao meu próprio atentado, eu seria outra pessoa, que não haveria retorno.
Naquela manhã em que meu corpo ficava dormente, eu não tinha nada sobrando, havia tentado esquecer tudo que um dia fui. Naquela manhã estava deixando o vazio levar meu corpo, e lentamente aceitava meu destino. Naquela manhã tudo parecia mais fácil de dizer adeus, ninguém se importaria. Uma voz interior me dizia para lutar, para viver, e eu dizia: “Não hoje, é muita dor para carregar” .
Apenas aguentar este dia, é a última vez que falaria de tudo, estou me perdendo, você pode tentar derrubar a porta, eu encontrei minha própria saída. Você pode me odiar por isso, eu não me importo mais.
Meu corpo frio, imperfeito, inerte, dormente, sem fuga do sol que tentava entrar pela janela, desaparecia, e uma frase parecia ser escrita em minha pele com aquela lâmina como uma nota qualquer em um corpo vazio: “Obrigado por tudo”






Comentários