Frente Fria
- Lucas Antero

- 30 de mai. de 2022
- 3 min de leitura
É inverno, o frio absorve qualquer resquício de normalidade da cidade, os moribundos largados á própria sorte nas ruas. Vanessa caminhava olhando para o céu daquela tarde, tão azul. Ela segurava o bilhete de loteria como se o vento a cada instante tentasse arrancar dela aquela chance, olhava para aqueles números agora que havia sonhando tanto, contemplava a sequencia infinita das possibilidades de mudança e se agarrava aquela mínima. Entrou em uma lanchonete, pediu um café e um pão de queijo, a atendente sorriu e elogiou seu cabelo, ela sorriu de volta.

Algo havia atraído sua atenção do lado de fora da vidraça, o vento de intensificara e o frio também, as folhas dançavam no mesmo ritmo, lentamente se via, tímido, os primeiros flocos de neve caindo. Era Junho, a primeira vez que nevava em Belo Horizonte. Vanessa sorriu, ficou observando por dois minutos os primeiros resquícios de neve enquanto as pessoas ou corriam ou paravam para filmar e fotografar tal acontecimento.
Agora sua atenção se voltara para a mesa, onde dois papeis cuidadosamente dobrados estavam depositados, um era o resultado da loteria, o outro era o seu jogo. Primeiro começou a desdobrar o resultado lentamente, depois seu jogo, sorriu ao ao observar os dois abertos, a atendente veio até ela novamente, que aceitou mais café e perguntou:
-Você também ouve esse ruído branco?
-Não sei moça, acho que é o radio, também tá nevando né, nunca aconteceu isso, talvez seja o fim dos tempos, acho que devemos rezar... Você tem cara de que é uma moça direita e vai pra igreja.
-Bem... acho que Deus ainda em mim existe, em algum lugar, foi minha fé que se esvaiu em um processo natural, com o tempo...-Vanessa disse, sorrindo.
-Bom ainda dá tempo...
-Obrigada pelo café.
-De nada meu bem...E você, não vai lá fora ver a neve?
-Daqui está bem quentinho! - Respondeu Vanessa - E você não vai lá fora?
-Estou trabalhando meu amor...
Vanessa sorriu para atendente, que sorriu de volta e fora atender outras mesas. Dez minutos depois, se levantou, pagou a conta e entregou uma gorjeta para atendente, uma nota de cinquenta, com os escritos "Todos os dias escuto esse ruído branco, obrigado por fazê-lo parar por alguns segundos" e saiu.

Já era noite quando Vanessa se viu caminhando no meio da rua, tentando afundar em si mesma, como se perdida entre seus vales sem nenhum eco. Haviam milhões de pensamentos em sua cabeça, ruídos que ela tentava abafar, em vão. A neve caía um pouco mais forte, algumas pessoas se aventuravam nesse frio de menos 9° célsius e gravavam vídeos. as luzes de alguns carros iluminavam sua pele. Se viu as margens da lagoa da Pampulha, tirou as sapatilhas e caminhou pela grama próximo a igreja, afastou-se um pouco, chegando mais perto na margem, a neve quase cobria a grama e a água se movia criando pequenas ondas. Ela queria poder nada ali naquele momento, deixar que a pequena correnteza a leva-se por todo o cumprimento dos 18 quilômetros.
Esperou por um tempo até que os corredores mas assíduos saíssem da orla. Agora havia apenas ela, a frente fria, seu ruído, e o evanescente sentimento de leveza em seu corpo, de libertação, o bilhete ainda estava em seu bolso; a neve agora cobria seu cabelo ela tremia, próximo a uma arvore, ela encontrou uma pedra, que ainda se abraçando ela sentou e chorou.
Chorou por tudo o que viveu e o que nunca viveu, por todas as chances, todas as vezes que disse sim quando deveria ter dito não, por tudo que passou, pelo ruído branco que nunca a abandona, que á atormenta com seu silêncio estático, pela realidade que estava se transformando bem a sua frente, pela incerteza, pelo breve adeus que agora estava dando a sua antiga vida, pelo frio que nunca sentiu e agora estava sentindo, tentando se abraçar não para se aquecer, mas sim para se consolar, pra provar que tudo aquilo isso é real. Pela primeira vez, depois de anos, ela sentou e chorou.







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