EU/VOCÊ/ NÓS
- Lucas Antero

- 22 de nov. de 2023
- 4 min de leitura

Eu cambaleante, mal conseguia me manter de pé, caí de joelhos quando cheguei perto dele. A primeira coisa que notei foi seu perfume, tentei me levantar, mas minhas pernas falharam no meio do percurso e caí novamente de joelhos. Ele me ajudou a levantar, me segurando pela cintura. Eu pude sentir seus dedos segurando entre os espaços de minha costela. A primeira coisa que ele percebeu era que eu estava bêbada. Me carregou até a poltrona e depositou meu corpo lá, logo depois retirou o cabelo da frente de meu rosto.
-Quantas você bebeu? _Disse, alisando meu rosto gelado com as costas de sua mão esquerda.
-Algumas! - EU disse.
-Mais de 3?
-Sim, umas 7! Mas olha só, é meu aniversário hoje, então eu posso beber algumas não posso?
-Claro que sim. Mas isso não inclui machucar a si mesma. - Ele disse levantando meu pulso esquerdo. Merda! - Você fez isso consigo mesma?
Meus cortes recentes coçavam e ardiam, tentei esconder meu outro braço mas ele o segurou também, que sangrava ainda mais. Tive a sensação de que ele apertava mais forte meu pulso agora que viu o sangue escorrendo pelas minhas mãos e chegando até as dele, nosso primeiro segredo, eu estúpida fiz ele ficar preocupado, e a única coisa que consegui responder foi:
-Acho que sim!
-Como assim, “acho que sim”!? -Ele genuinamente não parecia bravo, só confuso e um pouco decepcionado.
Ele soltou meus pulsos e meus braços caíram languidos em minha coxa, manchando-as de sangue, eu já estava planejando fazê-las sangrar de qualquer forma.
-Mas isso não importa não é!? É meu aniversário, vamos fazer alguma coisa, por que não sentamos do lado de fora aqui da varanda de casa e olhamos pro céu?
Ele se levantou abruptamente e saiu da sala, que pareceu muito maior comigo sozinha naquela cadeira. Eu pensei que ele tinha ido embora, deixei meu corpo escorregar da cadeira até o chão frio e tudo começou a rodar, eu queria chorar, não sei se foi o álcool que não deixou ou os remédios que tomei junto. Alguns minutos depois ele voltou com uma sacola. Novamente me ajudou a levantar e sentar na cadeira. Ele tirou da sacola algumas bandagens e bolas de algodão, pegou uma cadeira, sentou-se na minha frente puxou um de meus braços para si, dobrou a manga de minha blusa branca que agora estava vermelha e começou a limpar meus cortes com o algodão e soro fisiológico. E pela primeira vez eu realmente chorei.
-Tudo bem ?_ Ele perguntou, olhando pra mim
-Sim, pode continuar!
Ele não disse uma palavra mais enquanto limpava meus outros cortes, mas murmurava alguma melodia que eu acho que era “Nothing is gonna hurt you baby” da banda Cigarettes after sex. Quando ele terminou e enfaixou ambos os meus pulsos, me levantei cambaleante e me sentei em seu colo, aninhei minha cabeça no seu peito. Ele alisava meu antebraço direito e eu estava quase pegando no sono quando ele pareceu se mexer e disse;
-Sei que não é o melhor momento, mas, feliz aniversário L!
Desaninhei minha cabeça de seu peito, imediatamente vi em sua mão um colar com uma pedra verde escura, eu imediatamente comecei a chorar.
-Não chore. Posso colocar o colar em você?
Eu balancei a cabeça em afirmativa e enxuguei as lágrimas com a bandagem que começava a avermelhar. Ele envolveu meu pescoço com o colar.
-Obrigado, obrigada, obrigada... eu amei!
Eu disse enquanto o abraçava o mais forte que eu conseguia. Não me importava que meus braços doíam e sangravam. Ele também me abraçou forte que meus ossos rangeram. Depois de dois minutos ele olhou para o relógio e disse:
-Bom, é melhor eu guinar pra casa, são quase meia noite..
-Mas você não pode ficar aqui?
- Bem, eu tenho que trabalhar amanhã cedo, além do mais o que as pessoas vão pensar? Seu irmão provavelmente me mataria se visse a hora que estou saindo de sua casa, pior ainda se eu saísse pela manhã. - Ele disse olhando bem fundo nos meus olhos, eu pude ver meu reflexo idiota e feio através de suas pupilas. - Além do mais, você está melhor não está!? Você não está pensando em beber novamente ou se cortar outra vez, está?
Eu queria dizer que sim. Que se ele não ficasse essa noite, eu teria que secar outra garrafa de Pérgola para silenciar as hienas que sempre riem de mim por ser gorda e imperfeita, que arrancaria minha pele fora, que abriria sulcos maiores em meus braços para que o sangue impuro pudesse escoar e eu me sentir limpa e fresca. Mas o que eu disse foi:
-Eu estou bem. Mas os vizinhos não têm nada a ver com isso, eu moro sozinho idai? A casa é minha, foi eu que a comprei. Sério. Não tem nada a ver você ficar e dormir aqui. Olha, serio tem uns pijamas aqui pra você vestir, e ai amanha você acorda cedo e vai pra casa, você nem mora tão longe daqui, sério, eu faço o que você quiser, faço o que você quiser!
Não percebi, mas quando as ultimas duas frases saíram de minha boca eu vi que havia dito algo que não deveria, ele pareceu não se importar e olhou pra mim meio assustado e confuso.
-Olha e quem vai trocar minhas bandagens? Elas já estão ficando manchadas! - Eu disse, mostrando meus braços.
-Sério mesmo!?
Ele perguntou, surpreso. Meu corpo ainda languido pendia lentamente de um lado para o outro, minha cabeça doía e rodopiava e por um momento um arrepio passou por minha espinha e eu desabei, mas ele consegui me segurar antes que meu corpo quicasse o chão e eu envolvi meus braços em seu pescoço. Voltamos a sentar na cadeira, eu em seu colo, chorando baixo por ser estúpido e dependente a ponto de manipular alguém a ficar ao meu lado porque eu tenho medo de ficar e enfrentar mais uma vez meus monstros noturnos. Eu poderia realmente perder o controle, apenas por uma noite, tomar alguns comprimidos para dor e ver o quanto de gordura eu consigo arrancar de mim até me sentir magra ou até desmaiar. Mas não essa noite, eu analisava a pedra do colar em meu pescoço, com as pontas de meus dedos elétricos, quando ele disse logo após beijar minha testa:
-Ahh querida L, você é perfeita demais em sua dor!






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