Eu sei, acabou. Mas nunca realmente começou!
- Lucas Antero

- 13 de dez. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 16 de jan. de 2023
Naquela noite eu cheguei quase como se estivesse flutuando ao escritório da psiquiatra, não sentia que estava presente de espírito, apenas meu corpo, enquanto ele vagava em algum lugar denso e vazio do subconsciente. Eu sei que acabaria naquela noite após aquela consulta. Eu entrei, nos cumprimentamos como sempre e ela me pediu para deitar em uma das espreguiçadeiras almofadadas, como sempre escolhi a azul escuro.
-Você parece cansado! -Ela disse.
-Um pouco.- Eu disse com a voz tão baixa que não sei se ela ouviu ou não.
-Bem.. -Ela se ajeitou na cadeira. - Eu te pedi para se deitar dessa vez, porque vamos fazer uma abordagem diferente. ao invés de me contar como está se sentindo, eu quero que feche os olhos, esperamos quinze minutos e você começa a me dizer o que está se passando em sua cabeça, qualquer pensamento, pode ser Lucas.
-Ok.
Fechei meus olhos. Por alguns minutos apenas o breu e o barulho do tic tac do relógio, então alguns pensamentos começaram a fluir..
-ME diga o que vem a sua mente, qualquer coisa, qualquer imagem, pensamento, palavra e não fale até eu pedir.
Silêncio... Então eu comecei:

-Estou caminhando sozinho, como sempre, não tem mais nenhuma pessoa passando na rua naquele momento, apenas a rua vazia e o tempo nublado. Estou olhando para as azaleias, não sei para onde estou indo mas sinto que estou indo para algum lugar. As vezes sinto saudades da casa de Deus, e depois passa. Sinto saudade do inverno e das coisas frias, sinto saudade de me sentir frágil, sinto saudade de abraçar, sinto saudade de ser inútil e não me importar com isso, sinto saudade de quando o tempo não corria... Alguns cortes coçam, tem muito tempo que eles não ardem. O vento sopra, me lembro dos meus livros que estão em minha estante nova, então escrevo uma nota vazia de adeus e deixo na praça pra alguém encontrar. Me sento no banco, as pontas de meus dedos estão frias e elétricas, sinto vontade de escrever a palavra "virtude" em minha coxa direita mas não tenho o bisturi ou a caneta azul. Meu telefone toca, tento pegar para atender mas ele passa pelas minhas mãos e se espatifa no chão; os pedaços desaparecem. Arranco uma flor, passo-as em meu rosto, algumas pétalas grudam em meu rosto, começam a se fundir em minha pele, dói, depois arde e depois sinto a sensação de frescor. Arranco outra flor e passo em meu rosto outra vez, a mesma ardência, dor e depois frescor. Será que é assim que é ser perfeito? Para onde os amantes vão quando eles estão cansados do mundo? Para onde irei quando estiver cansado do mundo, de mim? Pra onde eu fui? Sinto saudades de não precisar ser forte. Agora estou nas margens do rio, não sei qual rio, me deito a beira e deixo que as pequenas ondas provocadas pelo vento forte me puxem para dentro dele. Ouço uma voz me chamando de pequena tola alma de garota, mas já é tarde, estou flutuando e o céu ficando cada vez maior. A correnteza me leva, mas não me puxa pra baixo, não faz diferença, eu não sei nadar mesmo. Eu não me sou. Juro que um peixe tentou falar comigo me dizendo que estou vazio e também vazia, por isso consigo flutuar. Ele nadou, aquele pequeno peixinho laranja, por entre meus dedos e fez cócegas. Eu não existo e se eu partir deve haver um lugar melhor, minha célula a nível quântico quer acreditar nisso. Onde está minha mente agora? O que eu tenho de tão importante se não sou útil? Não sou perfeita, a beleza me falta, a graça a beatitude da comunicação, apenas a quietude reina em meu corpo imperfeito e marcado. A correnteza me leva para o mar, eu sempre gostei do mar. O peixinho nada novamente por entre meus dedos e faz cócegas. O mar está calmo, de repente sinto um calma, um frio, um imenso vazio, um ruído azul claro. Minha cabeça se choca contra os corais. E agora, eu não deixei uma nota sequer? "Não se preocupe seu bobinho, você deixou uma nota vazia, lembra" - diz o peixinho. "E meus livros?" "Sei lá. Eles já são histórias, podem esperar"
O mar agora carrega meu corpo mórbido adentro, lentamente entre as ondas, carrega meu corpo para longe de mim, do rio, da praça, dos meus livros, de minhas imperfeições, minha ansiedade, minha inutilidade. "E agora, está grato em partir?" Perguntou o peixinho. Mas eu não consigo responder, a água já invadiu meus pulmões. Meu corpo desaparece no horizonte e o peixinho retorna para dentro dos corais. Então é assim que acaba? E quando realmente começa, a vida?






Comentários