Enquanto minha pele queima (Parte 1)
- Lucas Antero

- 23 de out. de 2020
- 5 min de leitura
Quase sempre antes de dormir, subconscientemente me pergunto o que é vida, o que sou, qual é o meu propósito; o silêncio de meu quarto escuro estremece meu corpo com a resposta. Depois que minha visão se acostuma com a escuridão, consigo perceber os relevos das paredes descascadas de casa, de meus livros empoeirados e me pergunto se minha vida é apenas a misericórdia de algum ser transcendental. Pela primeira vez em meses senti algo diferente, fora bem a tarde quando fora esquentar o café na casa de meu irmão, me sentei na escada enquanto a xícara girava no micro-ondas, e fiquei a observar meu irmão dali a lavar a louça e me perguntei quanto tempo que eu não o abraçava, quanto tempo não me sentava e conversava com ele por mais de dez minutos ou quanto tempo não abraçava qualquer outra pessoa, e pela segunda vez meu corpo estremeceu, o café esquentou, retirei-o do micro-ondas e retornei para minha casa vazia e imperfeita.
Eu sempre fui otimista, por mais que doesse e achasse injusta as coisas, sempre conseguia encontrar sorrisos nas pequenas nuances da existência, antes era apenas ficar quieta, com o silêncio sondando minha mente, depois foram os livros, comprei vários deles e assim continuo. Bem estou me prolongando demais nesta carta, como sempre faço em todas as outras.
Me lembro das coisas em lapsos, em pequenas partículas, minha mente estava muito tumultuada ,meu corpo fraco. Me lembro do momento em que você enrolou ambos os meus braços em toalhas, me ergueu do chão todo manchado de sangue, me carregou até o carro, sua camisa branca se tornou vermelha, e todo o caminho até você me colocar no banco do carona eu continuava repetindo: Eu fiz isso, eu mereço, me perdoe. Eu fiz isso, eu mereço, me perdoe!. Meus braços doíam, meu corpo ardia, minha garganta queimava. A estrada era um borrão, luzes cintilavam e minha cabeça doía, senti que havia começado a chover. O vidro em que eu debruçara minha cabeça esfriou. Você estava em silêncio, talvez estivesse zangado, não sei. Me lembro do momento em que o frio atingiu meu corpo senti uma imensa vontade de chorar, e foi o que fiz, o frio era tanto que meus ossos doíam.
Eu sabia da forma que seria minha existência até o fim, como se eu houvesse herdado o poder de prever meus próprios passos, meu destino, meu determinismo, meu estranho destino até o fim, por isso estava pensando em acabar com tudo, mas quando você me tirou do carro novamente, pulou a catraca do hospital e gritou que eu estava morrendo, percebi: Eu estava pensando em acabar com tudo sim, mas você nunca me deixara fazer isso, estou presa a você, até que você morra, assim poderei morrer.
Nunca imaginei que alguém algum dia veria meu corpo nu. Ouvi dizer, ou li em algum livro que se quisesse ser íntimo de alguém, teria de contar as coisas que aconteceram comigo, teria de contar sobre as marcas em meu corpo. - Mas quem quereria este corpo e este espírito que ele carrega? - perguntou meu subconsciente – Que se aninharia em mim enquanto eu estivesse lendo um livro no sofá de casa e a chuva caindo do lado de fora? Quem permaneceria em silêncio ao meu lado apenas contemplando minha presença? Quem quereria estar aqui se nenhuma ambição permeia os alicerces de minha existência?
Mas você chegou. E a primeira coisa que senti fora que finalmente eu poderia ser frágil. A primeira vez que vira meu corpo nu, estávamos no quarto, você começou a beijar meu pescoço, mas sabia que eu tinha medo, por fim me levantei e comecei a tirar a roupa e você me perguntou se eu não estava me sentindo forçada a fazer aquilo, eu apenas disse que haviam marcas em meu corpo que talvez você não gostasse. Eu já havia lhe dito sobre elas, mas você apenas sorriu. Quando estava completamente nua você segurou minha mão esquerda, e fora lentamente analisando meu corpo, minha pele, meus cortes, minhas marcas, minhas imperfeições, e quando beijou um de meus cortes recentes minha pele ardeu.
Hoje, depois de ter passado todo aquele episódio, meus braços ainda detém as marcas daquele dia, profundas, a cicatrização criou um relevo. Corri oito quilômetros hoje, cheguei em casa você estava fazendo o jantar, eu estava toda suada e mesmo assim você me beijou, eu fiz uma cara de nojo e você gargalhou, fui tomar banho e você começou a cantar alegremente, me sinto péssimo porque estou pensando em acabar com tudo e você nem faz ideia. Me despi, senti vergonha de meu corpo nu. Será que algum dia eu o havia imaginado velho, completamente coberto de imperfeições , eu sentaria em minha cadeira de balanço na varanda de casa e leria as páginas finais de algum livro? Será que pela manhã quando estivesse com uns sessenta anos me imaginaria cuidando das plantas do jardim de casa, conversara com as flores, buscaria em seu aroma as lembranças de outrora de uma vida que não vivi? Não, eu não me vejo nesses devaneios, eu vejo você, cuidando das flores que comprei e disse que gostava tanto, limpando minha imensa coleção de livros, relendo apenas os que não faziam lembrar de mim. E onde e estou nestes sonhos? Meu corpo estaria flutuando nos oceanos, lânguido, frio, sendo morada de algas, até que o peso me afundasse para o breu vazio e nele enfim habitasse vida.
Quando me deitei na cama após o jantar e você se deitou logo em seguida, me envolvendo em seus braços protegendo minha caixa torácica, chorei silenciosamente porque me senti tão salva, como se tudo daquele dia nunca houvesse existido. Você não percebeu que eu chorava, e quando tentou tirar os braços porque estava fazendo muito calor e eu os segurei, você apenas retornou para a posição que me envolvia com seu corpo e ficamos assim a noite toda. Acordei primeiro do que você, senti sua respiração pesada, quando respira assim é porque está sonhando, chorei novamente porque estou pensando em acabar com tudo e você nem faz ideia.

Estamos dentro do carro, o radio está desligado, apenas ouço o barulho dos pneus na estrada vazia, seus olhos estão vidrados na estrada a sua frente, eu pensativa mordo meus lábios, você pisa no acelerador, vultos distantes e velozes dos fantasmas sussurram as palavras sobre meu corpo, você não acreditaria em mim se lhe dissesse o que estou pensando em fazer, você não me deixaria fazer isso se lhe dissesse o quanto de sangue está envolvido, você tentaria me salvar uma vez mais.
Você me deixa no aeroporto, meus passos vagarosos, em câmera lenta, ao sair do carro e pegar as coisas, ao me deixar no embarque e desembarque, quando meu voo é anunciado você puxa meu corpo contra o seu e me dá um longo beijo de despedida, quando você finalmente me solta e diz que me ama e eu também digo que te amo, você vira as costas. No corredor de embarque as lâminas chacoalham em minha bolsa, e pela primeira vez depois de meses a palavra que escrevi em minha virilha naquele quarto de hotel com aquele bisturi volta a arder: “Aniquilação”, e meu corpo fica rígido e começa a suar ao saber que cada vez se aproxima mais do fim, como um segredo que pertence apenas a mim, e poderei flertar com ele a cada instante desta viagem até que se concretize. Então uma segunda palavra em minha barriga começara a arder: “Autoridade”






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