Enquanto arranho minha derme
- Lucas Antero

- 16 de mai. de 2023
- 3 min de leitura
Eu não estou aqui, nunca estive, sou penas um corpo feito de argila e massa de tomate cumprindo suas funções biológicas de dispersar e gerar energia. Sempre tivemos a respostas quando crianças e nossas mentes, com o tempo fingimos que esquecemos, mas elas sempre estão lá, no fundo de nossa memória, inevitável e cruel em certos momentos.
Seria essa a verdade: Diante da morte e da ideia da morte não amar mais a própria vida?
"...O universo não tem obrigação nenhuma de fazer sentido pra você!" - Foi o que ouvi uma vez me dizerem, e estavam certos; logo em seguida a frase: "O mundo é indiferente e as pessoas são injustas!"
Todos estão dormindo, exceto eu. Já escrevi minhas cartas( e quem é que ainda escreve cartas no século 21? Eu), já me embriaguei, ainda não sangrei o bastante para merecer a indulgência, meus cortes ainda não ardem e a dormência do álcool ainda não atingiu minha derme e meus pensamentos. Em minha casa vazia as paredes elucidam a minha inexistência, a única coisa que ainda me permiti perceber que sou real são meus cortes, esses sulcos em minha pele que me fazem sentir-me limpa depois de ter decepcionado alguém, de não ter sido suficiente, perfeita.

Eu poderia ter sido tão perfeita, uma bailarina, o corpo fino dançando as calorias para longe. Deve ser fantástico ver os ossos da pélvis despontando na cintura, minha clavícula perfeita cabendo meio copo de água, minha pele lisa perfeita. Quem fala que isto é ruim não sabe da fantástica sensação do estômago vazio, de ter o total controle. Eu me lembro de uma vez cair da escada do segundo andar e quebrar meu pulso e torcer meu pé, foi a única vez que se importaram comigo, me senti fantástica, foi ai que eu comecei a fazer os cortes, para me sentir viva, no controle, real.
Será que o que aquele moço disse é verdade, que todos estamos aqui para cumprir um propósito?
Agora nessa madrugada os frios braços da brisa embalam meu corpo lânguido em direção ao que minha célula quântica tanto deseja e talvez essa noite eu flutue para tão longe. E por quê eu não poderia perder o controle apenas uma vez, tomar a Cicuta dos tempos atuais, deixar de existir. Até porque todos estão preocupados com o maior sonho coletivo de todos, o de ser uma pessoa. O ser e a diferença A=A, em si mesmo a codificação da realidade; mas para mim o amor Eros nunca foi uma opção, se eu ao menos fosse perfeita, magra.
"Eu prometo brincar quieta, vou ser uma criança boazinha, fazer tudo que me disserem, não vou me enturmar com ninguém, prometo não gritar, vou brincar com as frutas do quintal de casa, fingindo que são personagens, e assim que partirem enquanto eu ainda sou bem jovem e pequenininha vou aparentar não me importar e não vou chorar"
Mas algo mudou, alguém me disse do que eu era feita, que eu podia sangrar, então eu sonhei que alguém me amou e me doeu os pulsos. Você fez um corte em mim para ver se eu estava pronta para realidade da existência e eu sangrei somente a sua espera. Tão cansada de dizer palavras incompreensíveis, cansada de ser importante para ninguém, cansada de estar cansada; eu caminhava cambaleante pelo centro da cidade, meus braços estavam amostra, não me importava mais que vissem as cicatrizes, eu esperava acabar com tudo naquela noite, o carbonato de lítio me esperava. Minha visão ficando turva a cada rua, quando tropecei, fui de encontro ao asfalto, meu supercílio sangrava, um estranho, que também aparentava estar bêbado me ajudou a levantar e a sentar-me em um canteiro.
"Eu poderia ter morrido se não tivesse me ajudado" - Eu disse
"E já não estamos todos mortos no fim de todas as coisas!?
Ele acendeu o cigarro, deu duas tragadas e me entregou e foi embora. E aqui estou, ardendo, dormente, procurando na dor e no sangrar em meio a madrugada algo que é etéreo, me sinto sozinha e isso é real.
Quando sangro por mim mesma em busca do etéreo sempre penso como uma espécie de oração "Me perdoe Deus por estar fazendo isso, e também não me esqueça porque eu morreria se não perdoasse e me esquecesse!"






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