Delírio (Trecho do diário de Gabriele)
- Lucas Antero

- 23 de abr. de 2023
- 3 min de leitura
Eu vi em um jogo que o demônio é feito de massa de tomate, assim como nós humanos, e em algum momento de minha vida eu quis descobrir a espessura dessa massa que saía em minhas veias...
Será por isso que Jesus sangrou outro liquido ao ser perfurado por aquela lança?
Eu queria adormecer com os fantasmas. Fazer com que acariciassem minha pele e depois me fizessem flutuar, vazio.
Me lembro daquele dia. Eu olhava para os comprimidos na bancada da cozinha. Eu queria perder o controle apenas uma vez; eu poderia não tomá-los e todas a hienas voltariam a gargalhar de minha pele e meu corpo imperfeitos, ou eu poderia tomá-los e permanecer dormente. Tomei os três com uma dose de vinho. Sentei em minha mesa para escrever com a garrafa do meu lado. Me lembro de lentamente ir perdendo o controle, meu corpo se tornando cambaleante, e você sabe muito bem a primeira coisa que avistei na gaveta, mas então você chegou e eu tentei correr em sua direção- eu precisava do seu abraço, mas então caí. Você observou toda aquela cena e todos os indícios a sua volta, você parecia bravo, mesmo assim pegou meu corpo lânguido em seus braços. Me senti dona de todo o mundo enquanto você me carregava até o carro. Escondi meu rosto em seu peito e me esqueci do mundo em volta. Eu estava nos braços de um anjo e pela primeira fez me permiti ser frágil, dependente.
Mesmo depois de todo verão você não me disse adeus. Agora é outono e a primeira frente fria depois dos dias de chuva se aproxima.
Aparento estar tão bem agora, tudo correndo bem, por quê meu corpo trêmulo elucida a falta de algo que não sei? O que toda essa ausência tem haver com meu medo de amar romanticamente as pessoas? se é assim que o mundo acaba, quieto, vazio, frio, sozinha, prefiro o cataclismo das emoções. Sim, aquele turbilhão ensurdecedor correndo em minha mente enquanto o álcool deixa dormente minha derme. A falta, da falta, da falta, assim como a origem da origem; a resposta sempre esteve lá, no fundo de nossa mente, apenas esquecemos as vezes.

Não consigo coçar até as marcas desaparecerem, são mais profundas que isso. Posso fazer outras por cima, mas nunca apagá-las!
Essa minha auto sabotagem seguido pela autoindulgência quando meu subconsciente acredita que já doí e sangrei o bastante me torna amorfa... Mas agora que minha casa, essas paredes estão perfeitas o que me resta senão a autofobia ? Ah querida Hipocondria, que me faz amar tanto quando os outros me façam sangrar.
Foi por isso que não me importei quando acertou a maçã do meu rosto do lado esquerdo e a senti rasgar e arder. Na verdade a culpa foi minha. Eu caminhava bêbada e sozinha por aquela avenida escura, bêbada porque tinha cometido um erro em meu trabalho e você sabe que não suporto ser imperfeita, então gastei meus últimos centavos com taças de vinho e dançando. Foi quando tropecei e choquei minha pélvis e minha cabeça contra o meio fio. Quando cheguei em casa você viu como eu estava, você ficou tão bravo que a única coisa que fez foi me acertar. Eu rastejei até o banheiro, precisava sangrar mais, não sei o que havia comigo.
Você entrou minutos depois e viu meus pulsos sangrando, você não estava mais bravo, dava para ver que se sentia culpado, foi isso que mais odiei. Você saiu. Eu podia sentir a eletricidade na ponta de meus dedos querendo cavar naqueles sulcos recém abertos, ver se eles se abririam e sangrariam anda mais, eu era e sou a única culpada! Você retornou com gases e começou a cuidar dos meus cortes, limpando-os, fazendo-os arder, enfaixando-os e quando terminou beijou meus pulsos, me fez tomar analgésicos e saiu.
Agora com a visão turva devido ao vinho e aos analgésicos caminhei ébria até o quarto escuro, não queria me olhar no espelho. Você estava deitado, parecia já adormecido então me deitei ao seu lado, depositei minha cabeça em seu peito, sua respiração pesada, naquele momento percebi: eu era seu Davi e você meu Golias. Percebi que eu era totalmente sua. Você se mexeu, passou seus dedos pelo meu pescoço, apertando, me senti frágil e salva, depois de anos perdida, finalmente pude me sentir salva e frágil. E se você quiser me leve a seu altar, afie sua lâmina da indulgência e me faça sangrar se isso te faz sentir melhor.
Sou como Ícaro, e você é o meu sol mas também é o mar, assim é minha queda mas também meu berço a minha espera enquanto despenco gargalhando até você!






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