Carta nº 3 "Mono no Aware"
- Lucas Antero

- 3 de set. de 2021
- 2 min de leitura

Existe um espaço vazio, quieto, frio, porém nem tanto como algumas manhãs de Julho. Esse espaço reside agora no quintal de casa, um quarto invisível, com sua própria atmosfera que absorve e depois dissipa toda e qualquer pretensão e inclinação para a correria, confusão e necessidade de imediatismo do mundo contemporâneo. Lá o tempo quase para, funciona apenas como uma partícula quântica, o tempo só se moverá se você parar e observar as mínimas evidências que sempre estiveram lá, tais como: o tronco que ainda resta do pé-de-limão, a forma como a teia de aranha brilha quando os sol das dez e meia reflete sobre ela; a forma como as folhas dançam quando o vento frio sopra a atmosfera, a coloração da terra a medida que o sol vai se movendo; o eco das araras retornando das copas da árvore, o cheiro da manhã que enche os pulmões e dá vontade de chorar, por fim, o espaço, o pequeno espaço vazio onde você insiste em permanecer até que o cotidiano raivoso te puxe de volta e você perceba que seus pulsos voltaram a coçar.
Você nunca pediu nada, nunca desejou nada além de permanecer ali em dias como esse. Não sei se é por conta de tudo que já viveu e sofreu, mas suas ambições são tão diferentes, quietas, simples, consideradas ridículas por esse mundo moderno.
Percebo que a medida que vai vivendo nessa dicotomia entre a correria do mundo moderno e a quietude que você se envolve em dias como esse, como um cobertor, você vai percebendo algo, vai se importando menos, vai afundando dentro de si mesma, talvez procurando suas origens e ou preservando sua essência.
Você acaricia os próprios pulsos frios, respira fundo e permanece inerte enquanto o sol toca seu rosto, como um monumento, o mais belo do jardim. Em breve iremos à praia novamente, caminharemos pela enseada deixando pegadas que logo serão apagadas pela água gelada, enfatizando aquilo que está tatuado em nossa essência "Mono no Aware"






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