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Carta Nº 2 - Perdoa-me o sangue e as cicatrizes.

  • Foto do escritor: Lucas Antero
    Lucas Antero
  • 19 de jan. de 2021
  • 2 min de leitura

Sei que vou te desapontar por dizer isso, mas acho que você não sabe que as vezes me picoto todinha, com a pressa e irregularidade de uma criança que descobriu a tesoura e a folha em branco. Faço isso com minha pele, uso lâminas, facas as vezes escrevo palavras nela também, quadradas, toscas, irregulares. Quinta palavra escrita em minha coxa com aquele estilete: Perdida. Nona palavra escrita: Desaparecer. As vezes gosto de passar o dedo sobre o relevo das palavras já cicatrizadas esperando que elas me pertencessem, nunca senti uma sequer.


Quando você pronunciou as seguintes palavras: "Estou perdendo você para você mesma, e com isso não posso te ajudar!", finalmente descobri o que significava estar afundando em si mesmo. Quando pronunciou também "Você não merece as pessoas que tem". Entendi o que era ser inútil e sugar toda a energia que as pessoas fortes me cobriam e mesmo assim permanecer quieta e sozinha em meu quarto como se nada houvesse acontecido, ou quando apenas esperavam que eu estivesse lá e eu sempre inventava uma desculpa para não estar. Seria tarde demais para voltar a ser aquela de 2014 ou 2015? Você não sabe o quão sortudo é, por saber de sua importância ao levantar pela manhã, não estou falando das obrigações, estou falando da importância de sua insignificância perante a quem de ama, alguém ainda gostaria de me abraçar?



Perdoe-me! Neste exato momento estou em meu quarto escuro e frio a tremer, a escrever. Você não sabe mas acabei de ferir a mim mesma com aquela lâmina que escondo na gaveta da escrivaninha, trancafiada, mesmo sabendo que ninguém se atreveria a mexer, mesmo sabendo que não existe ninguém para se atrever. E agora ébria pelos remédios e pela procura incessante da ardência que há tempos não sentia, escrevo. O que é preciso para ser amada, comprometimento, mutualidade, abdicação, desejo? O que é preciso para ser útil: senso de urgência, comprometimento? O que é preciso para voltar a sentir-me segura? Você ainda conseguiria me abraçar uma vez mais antes que eu sangre novamente?


Perdi quatro amigos, eles estão tão distantes, e quem se importa se ganho um pouco mais dinheiro em meus vinte e poucos anos( e eu mereço ganhar?) se eles não podem me abraçar?


Você quis saber se eu me sentia cansada de estar aqui, você quis saber se eu preferiria partir, e o silêncio presente em minha absência fez meu corpo se contorcer e emitir um grunhindo. Você nunca me entendeu, claro que tentou, milhares de vezes, eu é que não permitia, e todas as vezes, frustrado você me encarava e tentava aceitar. Você tentava entender porque eu permanecia de cabeça baixa, porque eu não falava... Você me viu sorrir tão poucas vezes.


Perdoe-me por você sempre acreditar em mim e parecer que não me importo. Perdoe-me ter sangue e cicatrizes, mas nunca lhe explicar porque, perdoe-me por nunca me explicar...desculpa-me por nunca tentar buscar.


E por último, perdoa-me porque agora estou sangrando no chão da sala por tentar arrancar de mim e externar aquela criatura vívida que um dia fui. Sei que já esteve aqui antes e eu me tornei essa alma estranha... Queria que eu fosse especial... Mas agora que sangro, algumas palavras ardem e coçam formando o inevitável questionamento: Como desaparecer completamente?

 
 
 

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