Carta Nº 1 - Derivando-se
- Lucas Antero

- 17 de jan. de 2021
- 2 min de leitura

Você me deixaria partir para que eu pudesse me encontrar, e quando eu voltasse você me abraçaria tão forte que meus ossos começariam a ranger? Se eu prometesse permanecer a mesma, você prometeria me proteger a qualquer custo, e quando eu não estiver bem, você me levaria para o telhado no final da tarde e me mostraria a imensidão do céu?
Você tinha todas as respostas e chaves, mas desapareceu repentinamente, e estou a três passos do fim. Agora que me viu sangrar pela primeira vez, percebeu que meus pronomes não são o que pensava ser. Se quiseres pode me chamar de tola garota mesmo sabendo meu nome. Você se assustou quando segurou minha pélvis e percebeu os ossos no contorno da pele fria. Você começara a entender o que sou, mesmo assim não queria. Me perguntou o que eu precisava que você fizesse para que eu me sentisse vivo, voltasse a me importar, para que eu fosse forte novamente, e eu disse:
“Me quebre por inteira, cada pedaço de meu corpo, me faça doer, sangrar, prove que a existência é mais do que estes movimentos mecânicos, e faça-me ser aquela que fui três anos antes.”
E agora tudo que me disse está correndo pela minha mente, corroendo meu ser, isso seria o suficiente? Poderia voltar a ser aquela tola garota que tanto amava? Se é isto que precisa que eu seja, eu posso ser.
Sei que talvez realmente entenda isso apenas quando me ver sangrar pela segunda vez e sentir as palavras que escrevi em minha pele, o leve relevo da cicatrização, porque ferir-se não doí tanto quando curar-se.
Sei que quando olha para mim, percebe que há algo diferente, algo que há oito meses me mudou por completa, e ainda vem me mudando. Tem medo de lentamente ir perdendo minha essência e tornar-me irreconhecível até para mim mesma.
Poderia eu sozinha, voltar ao ponto de partida, encontrar onde isso começou, sangrar novamente tudo para fora de meu corpo, e a ardência de meus cortes provar que minha essência ainda permanece a mesma? Ou terei de conviver nesta nova estrada irregular, onde meus pês descalços pisoteiam as cinzas daqueles que não compactuam com os plurais?
Por isso, sei que tenho que derivar da partida, mas não sei ainda para onde vou.






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