Aos pés do padre me ajoelhei e chorei.
- Lucas Antero

- 9 de jan. de 2024
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Está tudo tão confuso: Meus vícios, meus medos, minhas desistências, minhas vulgaridades, meus erros, minhas demências, meus méritos, minhas conquistas. Tudo parte de mim, o ser, tudo fundiu-se em um composto amorfo com um nome dado ao nascer, pronuncia que deveria elucidar a essência de mim, mas o álcool me faz esquecer um pouco do dia e deixa dormente meus sentidos, minhas dores vazias da solidão que tanto procurava e encontrei. O que EU de mim procuro em mim, o ser, o não ser? O que meu eu tenta tanto cavar em minhas entranhas para encontrar? a reflexão que me vem não é nada daquilo poético e etéreo que tanto queria. As respostas que outrora havia construído com tanto afinco se tornam esquecidas frente a um novo cotidiano, as contrações de mim e das vivências da vida transformam a calamidade do meu EU em algo particularmente normal e igual a todos os outros, não sou especial, não sou único, não sou única, nem para mim e me conformo sendo normal, sucumbindo a vícios lícitos, sucumbindo a normalidade que fazem-me esquecer da morte: dinheiro, viagens, cachorros, família, parceiros amorosos, suportáveis superficialmente aos olhos, não sobrando espaço para a vida etérea e poética tão sonhada por meu EGO.
Flutuando em mim como uma lua privada, alguns desejos da mente e do corpo para retornar e se sentir vivo, minhas orações confusas e pagãs á Deus em busca de ser concedido a benção do não acontecimento de alguns medos e neuroses, marcam minha mente e pele; o medo de morrer faz crescer o desejo de indulgência, de existência e permanência.
A noite chuvosa e fria de Janeiro, fazia meu corpo sentir novamente algumas verdades esquecidas há um tempo, o álcool deixava dormente e fazia retornar alguns demônios ao avançar das horas; a lâmina me aguardava viva, para ser sobrecarregada com a eletricidade das pontas vazias e frias de meus dedos, dando mas nunca recebendo; apenas como resultado a autoindulgência da mente e do corpo, nunca sendo perfeita mas desejando. Sempre compreendendo os limites, mas sempre desejando mais, e punindo-se por isso, criando, crescendo o desejo da perfeição por aprovação.

Chovia um pouco mais forte quando entrei no salão enorme por onde meus passos ecoavam, depois de muito tempo tive medo ao entrar naquela igreja, eu tolo garoto, tola garota frente á algo tão etéreo e grandioso, caminhava cambaleante, a figura frente ao altar me olhava com certo espanto. Me sentei na escada de mármore da pequena capela, meus braços sangravam manchando a batina do padre, meus cortes ardiam em contato com o pano, sem pronunciar uma palavra comigo aos seus pés ele afagou meu cabelo, então eu chorei.






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