Antes Do Amanhecer
- Lucas Antero

- 3 de fev. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de fev. de 2020
Você sussurrou em meu ouvido que eu era perfeita assim, e que se fosse preciso atearia fogo no mundo por mim e partiu. Deixou de existir no meu peito de amores e frustrações assim como qualquer outro sentimento ardente. Porém eu odiei ainda mais o quão rápido deixei de me importar.
É verão, chovera por dias, o tempo ainda nublado ainda anuncia alguma estranha tempestade e meu corpo seminu deitado no chão da cobertura, pulsa frio enquanto observo o céu meio rosado-escuro revelar entre as nuvens densas raios cintilantes. Billie Holiday toca ao fundo em meu quarto. Se eu lhe dissesse agora que desde o começo de tudo eu sempre sobre como e quando acabaria, que minha mente, de alguma forma havia conseguido traçar todos os caminhos possíveis, você me diria que era impossível, mas que vindo de mim algo assim, você acreditaria um pouco. E seu eu lhe dissesse que sinto vontade de chorar ao segurar qualquer foto de minha família, como se eu estivesse vivendo todos os sentimentos daquela acena ali eternizada, você sorriria e eu diria “Mono no aware” . Eu sei que a única coisa diferente de todos aqui sou eu, sei que meu peito pulsa de uma forma completamente diferente, e me dói saber que essa é minha essência.
Como fui capaz de conquistar tantas coisas e ainda sim me sentir vazia por não ser perfeita?
Como fui capaz de agradar tantas pessoas e mesmo assim me sentir vazia, apenas por errar uma vez e ver no rosto de quem acreditou em mim algum descredito?
Será que sou movida a elogios sobre minhas atitudes e meu corpo?
Quero que me perdoe por não ser perfeita. Quero que me perdoe por não ser magra como antes, por meu colar ósseo não aparecer bem abaixo de meu pescoço, por minhas calças estarem apertadas na coxa. Quero que me perdoe ainda mais por estragar meu próprio futuro quatro anos atrás, por tomar decisões tão erradas. Quero que me perdoe por ser esta tola garota que ainda tenta viver como se o sorriso de quem não tem muitas responsabilidades ainda fosse possível.
Me lembro de quando me fazia arder, doer e depois sentir o torpor, mas ainda sim mantinha minha inocência. Sinto falta disso, sinto falta do inverno.

Já fazem quatro horas, o céu agora está aberto, sem sinal de uma nova tempestade, as poucas estrelas endossam minha solidão. A água morna preenche a banheira enquanto esterilizo minha lâmina, a palavra “Perdida” ainda arde em meu calcanhar direito. Mergulho meu corpo na água, languido, ébrio e dormente pelas taças de vinho, que está apenas a espera. O primeiro corte, profundo, ardente, colore água de vermelho assim como os sais de banho, o segundo em minha perna esquerda apenas serve para mostrar que ainda estou sentindo algo, mas parte da dor é anestesiada pelo vinho e pela água quente, no quinto corte deixo que a lâmina boie sobre o rio vermelho. Permaneço imóvel até que a água esfrie. Trêmula, cambaleante me levanto e esvazio a banheira para depois enche-la novamente. Nunca pensei em cortar meus pulsos, seria uma bagunça total, talvez meus remédios pudessem fazer este trabalho, mas é que nesta noite minha pele parece tão macia, levemente beijo meu pulso direito com meus lábios frios, nunca estive aqui, e esta dor sempre fora real.
Gostaria que você ainda tivesse o controle sobre meu corpo, pudesse segurá-lo tão forte que meus ossos rangeriam, eu me entregaria e você acolheria meu sofrimento, de alguma forma importou mais para mim machucar a mim mesma do que lhe machucar, então eu beberia sua poção mortal. Mas não existem mais sentimentos neste mundo corrido, você não existe mais, decidiu desaparecer, e eu, covarde de mais para tomar essa decisão, permaneço aqui definhando até que alguém se importe e venha me abraçar.
Não posso voltar atrás com minha decisão, este passo deve ser decisivo, minhas mãos tremem, e nua preparo outro banho enquanto os cortes em minha perna ainda sangram. Me lembro de ter prometido a você que ficaria bem, mesmo que você não estivesse aqui, mas alguém sussurrou que eu ficava tão linda em minha tristeza, em minha dor, e acabei acreditando. Talvez o amor não seja para todos, você foi a única pessoa que me amou, não me importo se fora apenas pelo meu corpo.
Em uma noite fria, chuvosa, sonhei que havia entrado aqui, me beijado e que eu havia chorado tanto e que depois de meia hora, você havia carregado meu corpo esvaecido em seus braços e levou-me até a cama, e tudo havia desaparecido, você disse que me levaria para casa e que você nunca mais partiria e que mesmo na morte eu seria sua. Eu sei que eles me tiraram de você. Sinto falta das doces palavras que pronunciava quando queria que meu corpo fosse seu.
Eu pensei que poderia parar de machucar a mim mesma, mas somos todos viciados em algo que nos faz escapar da realidade, e ainda sim nos faça sentir vivos.
Tudo parece tão limpo agora, tão vazio, a água morna parece ter amaciado a pele dura dos cortes já cicatrizados, a lâmina dura acaricia a pele ainda virgem de cortes, esquecer o passado é a dádiva dos que querem viver. Meus pulsos se tornam mais frágeis, sensíveis, frios, apenas a espera da lâmina.
Eu afundo na banheira, meu corpo lânguido abraçava o nada imerso na água, e meu corpo, e minha alma sussurram, mesmo sabendo que o seu corpo não pode estar aqui: “Me encontre antes do amanhecer, onde tudo é quieto e eu posso te ver, porque quando o sol nascer, nossas almas vão se esconder de nossas fúteis vidas a espera de um novo anoitecer para que eu possa sonhar outra vez.”
Mas não importa meu amor, você não estará para sempre sozinho, porque lentamente estou morrendo.






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