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Numb

  • Foto do escritor: Lucas Antero
    Lucas Antero
  • 6 de jul de 2022
  • 3 min de leitura

Belo Horizonte,

Quarta-feira, 06 de julho


Me leve a igreja e eu contarei meu segredos mais profundos, e quem quer que seja poderá me condenar por sangrar, por ser humano, demasiado humano... Me leve a igreja, afie sua faca porque o que pregam não é realmente o Deus, e sim a projeção do que querem que seja, então corte minha derme e me condenem a eternidade.



Ah, meu amor, sei que me vira sangrar pela primeira vez quando eu estava sozinho em meu quarto. A garrafa de vinho estava vazia, e aquela lâmina fria. Você ficou bravo por alguns minutos quando me viu, não acreditando no que havia presenciado. Tentei lhe explicar que eu precisava daquilo, que sempre precisei, você nunca havia visto meu corpo nu também. Você ficou me analisando, á agua caindo sobre meu corpo, limpando o sangue quente, fazendo-me sentir mais vazio, nu diante de você. Receoso você se aproximou, segurei sua mão direita, te guiei até as palavras escritas, recém cicatrizadas "Tolo" escrito bem próximo a pélvis, bem próxima a palavra "Vazia" grafada duas vezes uma abaixo da outra criava relevo, e a maior palavra, "desaparecer" surgia perfeitamente desenhada bem próxima ao meu joelho. Eu juro que quando passou o dedo pelos meus cortes já cicatrizados eles arderam novamente.

-Por que faz isso? - você perguntou

-Tudo que me dizem, todas as palavras, preciso me limpar delas, mas ainda não é o suficiente.

-Há quanto tempo faz isso? - Você perguntou

-Há muito tempo.

- Você faz isso sempre que está com raiva?

- Faço sempre que preciso!

Você passou sua mão molhada em seus cabelos, olhou para o teto, parecia que queria chorar, acreditando que isso tudo era culpa sua, mas não é, nunca foi, nunca será, sempre foi culpa minha dizer sim a tudo ,o único sim que acertei foi quando o disse pra você. Me sinto salvo com você, na verdade você é a única pessoa com quem realmente me sinto salvo. Você saiu do chuveiro, eu permaneci, eletricidade em meu corpo, carga estática, meus cortes ardiam. Você voltou, desligou o chuveiro, meu corpo tremia, voltei a sangrar, você enrolou meu corpo em sua toalha, e me abraçou, juro que naqueles breves quarenta segundos, todos os pedaços estilhaçados durantes estes sete anos se juntaram, antes de se separarem novamente quando parou de me abraçar. Enquanto você me secava, te perguntei:

-Você vai me deixar?

-Não. Você é perfeito demais. Você é perfeito demais na sua dor!

Sei que não é justo tudo que você é e ainda permanecer comigo.

-Chegue mais perto! - Você disse.

Naquele momento eu fazia tudo que pedia, meu corpo ébrio pertencia a você, e é claro que sabia disso, você percebeu que sempre seria assim. Eu me aproximei, você beijou minha testa e saiu. Quando terminei de me vestir e fui para sala você estava lá no sofá. Em sentei ao seu lado, você permaneceu inerte, pensativo, eu sabia que era muita coisa para refletir. Eu depositei minha cabeça em seu colo, meus pés descalços, minha coxa ainda sangravam, manchando o pijama branco, mas você parecia não se importar, quando começou a acariciar minha cabeça e eu fechei meus olhos, suas palavras ecoaram em minha mente:

Você é perfeito demais na sua dor!

Você é perfeito demais na sua dor!

Você é perfeito demais na sua dor!

Você provavelmente vai adorar quando meu coração quebra e escrevo poemas, sei que nunca me viu ter um ataque de pânico, e não me odeie por isso, porque morreria se o fizesse.

Dormente, ébrio, languido, seu, somente seu, adormeci.

 
 
 

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