X=X
- Lucas Antero

- 7 de set. de 2023
- 4 min de leitura
"...Mas eu não pedi para nascer!"
A Doutora se espantou com minhas palavras. Eu nunca havia dito algo assim todo esse tempo, ela se endireitou na cadeira e fez algumas anotações. E tudo porque ela havia me dito que eu tenho medo de me relacionar com as pessoas, de ter que me expor ao outro, medo de não gostarem de mim, medo de ser ferido e de ferir e ser abandonado. Ela está certa, por isso me zanguei.
"Eu realmente não pedi para nascer( e me odeio por isso), mas também não quero morrer, mas graças a uma lei estúpida é um caminho sem volta. Acho que algumas pessoas, assim como eu, estão destinadas a mediocridade e ao sofrimento. Eu já aceitei isso!"
Eu completei olhando para as mãos delas que faziam as anotações com tanta força que achei que iriam rasgar o papel. Eu permaneci em silêncio, ela esperava que eu fosse dizer mais alguma coisa, mas pelos próximos quinze minutos eu permaneci em silêncio, observando um inseto que tentava atravessar a vidraça chocando-se com o vidro infinitas vezes incansavelmente na esperança de que seus esforços de alguma forma o fizessem atravessar o vidro em direção a sua liberdade. Ela me tirou de meus pensamentos quando disse:
"Quero te parabenizar por realmente ter sido franco sobre o que sentia dessa vez. Mas ainda quero entender mais afundo essa sua recusa em se impor, esse seu querer agradar a todos, essa necessidade de utilidade e o medo de se ferir. Talvez tenha haver com seu pai ou até então com aquela garota, Camila, do qual você me disse outro dia..."
Eu olhei para o teto, cintilavam luzes fosforescentes e depois um liquido viscoso e verde, a bile, pingava na mesa bem atrás dela, o inseto estava morte, assim como eu, resistente por muito tempo a viscosidade e acidez da existência que tanto devora seres tolos.
"Se eu pesasse menos, talvez minha pele seria perfeita e ai eu teria controle sobre tudo e então eu poderia viver e não teria medo."
Ela continuou anotando no caderno, e depois olhou para o relógio.
"Bom nosso tempo está acabando, eu quero de dar um pequeno para casa para nossa próxima cessão; quero que escreva tudo que te faz ter medo, depois as coisas que queria fazer e porque você não as faz, combinado!"
"Claro!"

Eu saí pela porta sabendo que seria a última vez que eu a veria. Era começo de noite, chuviscava bem fraco, ventava. Havia algo estranho em minha serragem, minha caixa torácica se expandia, o adubo que pretendia comprar para minha planta havia invadido meus pulmões, eu cuspia areia. Eu queria me abrir com aquela faca nova que comprei, ver do que meu corpo realmente é feito, observar a alma se esconder atrás dos ossos e depois se fundir; minhas lágrimas não saíam mas eu sabia que eram ácidas. Eu caminhava, os três sulcos em minha coxa direita sangravam, ardiam, doíam. As serpentes rastejavam ao meu redor, fazendo o chão se tornar escorregadio e o pequeno peixinho dizia em minha cabeça que eu poderia me afogar, que apenas precisava escutar a chuva.
Em casa a garrafa de vinho deixo dormente tudo que precisava, então eu pude me odiar uma vez mais, odiar cada célula que Deus havia feito de mim, mas com medo de Deus me odiar ainda mais por tudo que venho fazendo. Me leve pra casa, eu juro que não sangrarei mais. Porém eu precisava me explorar com aquela faca, descobrir minhas imperfeições, descobrir porque não consigo ser perfeita, descobrir porque apenas decepciono e não sou amado. Descobrir porque sou tolo e tola garota; descobrir como desaparecer completamente.
O teto de meu quarto girava, eu não conseguia correr mais, na magnitude da vida eu desisti de buscar o que é simples e etéreo, eu não consigo, não sem entender porque eu tola alma de garota, não consigo ser amada. Espero que sangrar me faça limpar meu corpo do álcool, das imperfeições, das dores e do medo e mutuamente me faça encontrar algumas mínimas respostas para infinitas e persistentes nuances da existência. A carne lateja, a palavra "vida" arde e sangra na coxa esquerda, morrer requer tanto trabalho que quando o número de cortes se aproxima de 33 eu paro, mais umas doses se álcool e aquelas pétalas azuis começam a sair pelos cotes recém-abertos em meu corpo, de alguma forma mais importar machucar a mim mesma do que os outros; e o banheiro se inundou com a vermelhidão. Coitadinho daquele pequeno peixe, continua a sussurrar adjetivos e substantivos na esperança de que minha mente não se desligue e ele possa viver. Ardem, doem e ardem enquanto os remédios para dor não fizeram efeito, enquanto isso, bêbado, cambaleante, tola garota dançante, rodopio enquanto minha pele termina de rasgar por si mesma, o espírito saí pelos sulcos em minha pele e congela o quarto. Estou cansada de morrer tantas vezes e me desenterrar para tentar viver uma vez mais, deve haver um cemitério só meu com tantas versões minhas, estou cansada de não ser perfeito, estou cansada de persistir em algo para mostrar a alguém que sou útil, cansada de me sentir culpado e recorrer a autoindulgência.
Mas não se preocupe em tentar arrombar a porta e aos gritos tentar me chamar e me salvar, eu estarei no jardim de casa, deitada na grama, sangrando, nadando de volta para meu lar, desaparecendo enquanto os cortes ardem, me fundindo ao solo, afundando e existindo como uma lápide aguardando o sol calmo vespertino tocar a face de pedra salientando meu epitáfio, aquilo que sempre fui "X=X", "X=X"






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