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MÃE

  • Foto do escritor: Lucas Antero
    Lucas Antero
  • 5 de nov. de 2023
  • 2 min de leitura

Eu sonhei que um ser de cor negra, cadavérica, magra, me aguardava do outro lado de um corredor com todas as paredes, inclusive o chão pintados de vermelho. Esse ser, que eu julgava ser uma mulher negra usava uma capa branca cobrindo todo seu corpo. A medida que eu me aproximava ela levantava os braços para me receber em seu abraço e revelava pinturas rupestres feitas com tinta branca em seus braços.



Meus passos eram lentos, percebi que meu corpo estava todo molhado, minhas roupas ensopadas, minha memória falhava ao tentar se lembrar: eu havia pulado de um rio, cachoeira, talvez eu tivesse escorregado de uma pedra com liquens, musgo enquanto fazia uma trilha. Meu corpo todo caminhava na direção daquele ser, eu não conseguia parar, mesmo que andando a passos lentos. Eu não sentia medo apenas curiosidade, leveza e vazio. Uma quietude imensa invadia minhas entranhas, mais oxigênio fluía em mim, cheguei próximo daquela mulher, ela finalmente abriu seus braços

-Mãe? - Eu perguntei mas ela não disse nada.

Eu a abracei, ela me abraçou. Passou seu polegar em meus olhos para secar minhas lágrimas humanas e imediatamente eu chorei sangue. Não doía, me sentia mais leve, calmo, diferente de como me sentia minutos atrás: Sozinho, Cansado, desistente, pesaroso. Eu também sentia que enquanto ela me abraçava meu corpo envelhecia um pouco mais rápido. Eu continuava a chorar sangue então finalmente o ser disse:

-Ah meu filho, senti tanta saudade, sempre sinto saudade de todos os meus filhos no mundo, mas que mãe seria eu se eu não os deixasse envelhecer e viver primeiro para depois retornarem a mim!? Mas olhe só pra você, está tão cansado, que pensou imediatamente em desistir. Tão sozinho que queria ficar mais sozinho, por que você se sente assim, que não merece amor(Eros) e ainda tem medo dele? Por que se sente assim? Ah meu filho, eu queria te abraçar mais forte mas isso te mataria, eu queria poder soprar a argila em sua narina e te secar mas ainda não posso. Meu filho, por que se sente assim, como se todos devessem te cortar como um cisto indesejado? Meu filho você queria de tudo um pouco, para agradar a todos e não se sentir sozinho, você gosta de machucar a si mesmo para se punir para não ser perfeito e para sentir que está sobre controle. Ainda não é hora, e você ainda não gostaria de saber o que há do outro lado de minha casa, de mim, ainda não, em um futuro muito, bastante distante te abraçarei outra vez...

Ela beijou minha testa, eu fechei meus olhos, por um momento o etéreo atravessou minhas veias, os cortes em minha coxa arderam, eletricidade fresca na ponta de meus dedos, argila fresca escapando pelos cortes mais profundos enquanto eu flutuava por um santuário de cinzas.


Então meu corpo emergiu das águas, assim que cheguei na orla eu vomitei suco de uva, tossi, minha cabeça havia chocado contra os corais e eu percebi, não era um rio era um oceano. Eu ainda estava sozinho, minha pele fresca, meus cortes ardentes, entre o por do sol e o mar, fechei meus olhos, não para morrer, não ainda, e sim para sentir uma vez mais o vespertino.


 
 
 

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