Sobre Meu corpo
- Lucas Antero

- 9 de ago. de 2019
- 4 min de leitura

Estou tão casada de lugares familiares me parecerem assustadores e estranhos,quando onde trabalho os momentos se tornam difíceis. Estou tão cansada de pertencer ao não pertencer por medo de que alheios possam me encontrar de forma estranha e me abandonarem de uma vez. E nunca me amaram mesmo.
Meu corpo dói enquanto repousa lânguido as seis da tarde em minha cama, e o inverno insiste em fazer doer meus ossos. Eu posso ter toda a esperança que me cabe no peito,mas basta uma unica faísca de ralidade oposta e me perco. Por que sou assim ?
Eu lhe disse que as vezes me envergonho de minhas paredes descascadas, porém são as que tenho. Meu corpo descansa lânguido em minha cama enquanto me doí . Eu já lhe disse o quanto as vezes posso fazer estranhos se sentirem bem quando estão tristes? Eu tenho a força imensa de querer mudar o mundo a minha volta, mas meu corpo se retem ao traço mais pertinente de fuga como prova de que o mundo ao redor nunca sempre quer ser mudado,apenas quer continuar ali até o fim de si mesmo, e eu continuo aqui tentando ser tudo por um nada enquanto meu peito dói a espera da mesmice que me apresenta a realidade; não os culpo,culpo a mim mesma,tola, fútil e narcisista garota que enxerga a possibilidade de tudo ser fantástico.
Sabe, as vezes canso de ser eu mesma porque me enxergam apenas quando sou o que elas esperam que eu seja, quando sou o que elas precisam que eu seja... Sinto frio em meu quarto, meu corpo não para de tremer enquanto espera ser punido por não atender perfeitamente as funções.
Quero amar, mas não da forma como esperam, porém sabes muito bem o que é o medo de olhares familiares alheios,mesmo que não se importem com o que acontece.
Quando estou sozinha em casa, seminua me olho no espelho “bodycheck” e meu corpo já familiarizado com minhas tomadas de decisões sussurra: “ Vá, me jogue contra a parede,tente chorar, vá de encontro com pilastras,corte seu dedo enquanto prepara o jantar.
Eu gostaria tanto de me entregar a isso, sem me perguntar como cheguei aqui
Gostaria de ser,
Não sou.
Me amam a distância, assim como você, e fogem, porque sou imperfeita, feia, e não pertenço a nenhum estado a não ser o de fazer sorrir sem credito.
Mas estou tentando fugir, perdoe papai,tenho sido uma garota má, narcisista,feia.,beiçuda.
Meu corpo anestesiado, a água quente a escorrer,não quero ser rude mas terei. Comprei estas lâminas na loja de artes,resistentes, a primeira palavra escrita em minha coxa esquerda: “Imperfeita” . Meu sangue tem um gosto metálico,arde, estou a explorar a mim mesma com essas lâminas, talvez quando cicatrizarem alguém irá acariciar todos esses relevos e eles irão arder e chorarei – O mundo não é bom e muito menos ruim, ele é por ele mesmo, aceite! - Ouço e enxergo em minha mente olhares e vozes dos alheios conhecidos, mas estou ocupada demais sangrando pelas paredes descascadas de minha casa,explorando meus músculos e arrancando a masculinidade que nunca me pertenceu com essa faca de cozinha. Não consigo fingir que não sangro mais,não posso permanecer quieta em mim enquanto meus cortes cicatrizam debaixo dessas bandagens, mas não quero que enxerguem meus cortes,talvez sim. Estou a explorar a mim mesma com essa lâmina fria e resistente, não me dói, apenas arde, porque meu corpo estarrecido,anestesiado procura a razão pelo meu luto e encontra apenas ele mesmo, assim aceita o fato de que seu destino é ser incompreensível,ser uma tela violenta e imperfeita do que nunca pareceu ser o que aparento: “ A fragilidade de minha vida e de meus laços humanos afetivos construídos a base da dependência da aceitação que me doam quando provo minha utilidade e resolvo angustias alheias.” . Mas quero ser frágil abertamente,quero que alguém me abrace porque estou triste,mas tenho medo e tranco-me em mim mesma,na tentativa de encontrar palavras dentro de mim que me façam sentir melhor, mas agora estão escassas, por isso terei de escrevê-las em minha pele com essa lâmina. E como uma canção de ninar elas dançam em minhas pernas enquanto me fazem adormecer ardendo... Eu deveria ter me amado, porém é tarde e meu corpo revela o que eu escondia tão cuidadosamente dos alheios: “Não sou o que aparentava ser,muito menos o que costumava ser quando me conheceram” Perdoem-me,antes do amanhecer estarei fria e quieta,adormecendo enquanto os fantasmas que habitam e as vezes flagelavam, talvez abusem de meu corpo mutilado e sangrante e depositem pétalas em meu corpo.

Talvez eu me masturbe novamente antes de cortar minha pele! Vê como sou tola!?
Ah queridos, tudo pode ser perfeito agora se me deixarem sangrar, me deixarem ser o que quero ser mas tenho medo. Talvez eu escreva mais uma palavra em minha pele,irregular, porosa,oleosa,ridícula. Talvez eu desista de me alimentar e me torne perfeita, talvez as lâminas que escondo em meu banheiro me tornem importante.
Talvez eu diga adeus,mas não dessa vida, e sim daquela antiga pessoa que exista em mim e não me importe com os alheios porque desejo ser amada independentemente de quem,talvez não seja o suficiente para eles, mas para mim sim. Talvez eu diga adeus, mas não dessa vida e sim para aquela antiga pessoa que existe em mim,porque por hora estou apaixonada pelas lâminas que exploram meu corpo e o deixam anestesiado.
Talvez eu deixe que me embebede para usar de meu corpo para o consolo de suas angústias, e em silêncio retorne para casa e explore minha pele novamente com aquela lâmina bastante afiada que usam para cortar a massa de pão. Talvez eu não sinta nojo de mim mesma por não ter me tornado o que eu queria ser,talvez eu não conte a ninguém porque aparecem hematomas em meu corpo, talvez eu tente explicar porque pertenço totalmente a você e porque escolhi pertencer a você.
Não importa o quanto tudo isso se resolva, o mundo lá fora sempre se apresentará de uma forma completamente diferente e eu permanecerei dentro de mim mesma.
Mas talvez eu deixe que usufrua tanto de meu corpo, e bêbada de vinho, chegue em casa e picote tanto minha pele que enxergue o mundo de forma diferente. Ah querido,mas isso somente se prometer que nunca me abandonará depois disso, porque assim, serei completamente sua,meus cortes,as palavras tortas que escrevi e escreverei em minha pele,tudo será seu até o fim de minha vida, e o que peço é que apenas seja meu imutável porto seguro.
Da sua eterna depressiva narcisista ,
Que sempre descobre uma nova forma de sangrar,
Te amo para todo sempre






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