A Primeira Manhã
- Lucas Antero

- 22 de abr. de 2018
- 3 min de leitura
Acho que você sempre gostava quando eu sorria profundamente e dizia que você me fazia a mulher mais feliz do mundo. Tenho absoluta certeza que adorava também quando eu vestia suas camisas e elas ficavam grandes em mim,você sabia que eu estava apenas de calcinha por baixo,e as vezes dançava sensualmente pra você,insinuando que tiraria a camisa e você desfrutaria daquilo que estava por baixo de sua camisa do Batman,nada que você ainda não havia visto,mas funcionava perfeitamente numa segunda-feira pela manhã em que você tinha que sair para o trabalho. Entendo perfeitamente o quanto adorava que eu cuidasse das flores do jardim de minha casa e dizia que um dia seriam nossas,e compreendo porque não acha estranho quando abraçava as flores e dizia que cada uma delas tinha uma memória que eu jamais queria esquecer.

O amor fora sempre algo que tive medo,algo que,em minha adolescência e juventude tentava evitar mas acabava sendo pega de uma forma violenta que sentia como se estivesse morrendo,não é necessário dizer sobre as borboletas no estômago que seria pra lá de clichê. Mesmo que o amor seja uma condição da alma,a minha deturpa,se não,cega-nos para tudo em volta,e como construí um futuro perfeito em meus mais fantásticos devaneios!
Lá no fundo sei que você sabia que eu era completamente diferente,apenas pelo fato de eu ser escritora você entendia como tudo corria em minha cabeça,como as palavras correm como rios,como os mais medonhos monstros,os mais ensurdecedores fantasmas,sussurram e outrora gritam aqui dentro de minha serragem,fazendo com que meu eu se construa a base de todas as formas subconscientes e algumas vezes até assustadoras demais.
O nosso amor era infinitamente perfeito,ou a cegueira dos sentimentos mais elevados me fazia enxergar isso;mas tudo mudou quando você viu aquela primeira palavra escrita em minha virilha,quando me recusei a tentar silenciar todos esses meus amigos fantasmas que ainda sussurram aqui dentro,quando me recusei a abandonar o vazio que mergulhava as vezes e ficava em um estado corporal-vegetativo,quando me recusei a dizer que havia alguma coisa errada com minha serragem que gritava tanto.
Você se afastou de mim quando meus pais morreram,depois inda mais quando meus avós morreram,como se você tivesse um contrato de convivência comigo feito com eles e assim com a morte esse contrato fora encerrado por completo. Mas agora que lembro quando você chegou um belo dia em que eu estava seminua na cama a pensar sobre a rotação inconstante que estava minha vida,deitou de costas pra mim e perguntou
“O que está acontecendo Clarice? O que você é agora? O que nos tornamos?”
Aquilo me acertou profundamente,odiava quando me sentia sozinha mesmo com você por perto,você que me fizera odiar sonhar em estar sozinha,e foi me fazendo ficar cada vez mais a medida que odiava estar sozinho comigo.
Então você se virou,eu me virei também,você me abraçou forte que pude sentir meus ossos rangendo no ponto de serem quebrados,me beijou na testa “Acorde Clarice” foi o que disse.,e levantou-se. Como fui tola em não perceber que suas malas estavam prontas naquela noite,como fui tola em sequer não me mexer em contestar aquela sua tomada de decisão,você foi embora naquela mesma noite,e inerte chorei toda noite com o que restava do seu perfume,seu aquecer;era o fim.
Na manhã seguinte,eu percebi,era realmente o fim;o sol nascera tão brilhante,como se a atmosfera estivesse sorridente. Sete da manhã,resolvi tomar meu café puro. Maldita prescrição medica,estava com 38 comprimidos na minha xícara de café,fui ao chão,meu pulso rápido,meu coração ao mesmo ritmo(esqueça-o,esqueça a si mesma) meus olhos ardiam,meu peito doía,o tempo estava ficando frio,minha cozinha começara a parecer maior do que era. O sol finalmente passou pela cortina da janela e iluminou todo o ambiente, desculpe Deus,estou muito ocupada tentando morrer!






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