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Lápides e Virtudes

  • Foto do escritor: Lucas Antero
    Lucas Antero
  • 9 de abr. de 2016
  • 3 min de leitura

Eu estava tão triste enquanto caminhava por entre as lápides e estátuas do cemitério,procurando algum sentido a mais para que continuasse melancólica como estava,mas encontrava somente silêncio,uma depressiva energia que me consumia tão fortemente que acabara por esquecer porque eu realmente estava triste. Já era final de tarde de outono, o sol ainda brilhava em algumas lápides decoradas com epitáfios que lembravam as maiores virtudes de todos. Mas sabe,acredito eu que quando tudo acaba era como estávamos a milhões de anos antes: um vazio escuro,um silêncio, não sentíamos nada...

A vida pode ser tão frágil quanto uma flor, e quando me lembro que as pessoas são tão efêmeras como as flores,sinto vontade de abraçá-las. Porém tenho uma alma cortante, e todos que tentam me amar uma hora ou outra acabam por se machucarem. Não sou tão fria, tenho sonhos,embora não importem mais agora,não com tudo que está acontecendo. Os dias estão se tornando frios,estão construindo cada vez mais granadas,armas,tanques de guerra,enquanto tudo se encontra em um declínio melancólico, e pessoas como eu,estão sendo jogadas em lugares frios para que nas cidades habitem somente os fortes. A guerra é eminente,e eu finjo ser forte para não ser abandonada,para que gostem de mim, e isso é depressivo,ser algo que não é para que gostem de você,muito mais depressivo do que andar por entre as lápides de um cemitério no final da tarde.

O sol já estava frio,eu já havia caminhado por cerca de cinco minutos naquele lugar acolhedor e infindável,o único lugar que agora dava-se para ler um livro,porque as cidades estão todas sendo destruídas pelos ataques dos aviões velozes que vem dos lugares mais distantes para dilacerar corpos inocentes,obrigando nosso governo a ceder ridículos espaços de terra que não servem para nada.. Enfim,escutei um barulho de choro em meio aquele silêncio,não senti medo,nunca senti medo,caminhei em direção ao barulho. Era um garoto,aparentava ter lá para os seus vinte e dois anos de idade,chorava incansavelmente sobre a lápide de alguém,logo senti pena dele. Me aproximei,ele pareceu não perceber,continuou chorando...

-Quem você perdeu?-perguntei

-Meu tio!-respondeu,sem olhar para mim.

-Ele era realmente muito importante pra você,percebo isso...-Falei,meio sem jeito.

-Quem é você garota?-Agora ele se virou para mim.

-Meu nome é Clarice!-Disse estendendo minha mão. Ele não se moveu,desisti...-Sinto muito por ele!

-Nós lutamos juntos na grande primeira incisão!-Isso acontecera a quatro anos atrás,e ele deveria estar se formando para soldado quando foi para a guerra,isso me assustou.

-Nossa!

-Eu consegui sobreviver,mas ele morreu quando faltava apenas dois quilômetros para serem tomados naquela área!

-Sinto muito!

-E agora não tenho ninguém!-Continuou a chorar!

-Sinto muito!

Tentei abraçá-lo mais ele não quis,talvez achasse que eu fosse um fantasma que queria alma dele,talvez por conta de minha maquiagem escura nos olhos. Bem,não sou fantasma,mas sou tão melancólica quanto um. Tentei me explicar.

-Eu queria apenas...

-Saia daqui por favor!

Ficar ainda mais triste não resolve nada,mas ajuda um pouco a perceber que existe um outro mundo tão profundo quanto que nos fere. Sai de perto dele e continuei caminhando,tentando me esquecer. As pessoas tem a imensa capacidade de ferir umas as outras com tanta facilidade,todos me ferem,e eu tenho a constante capacidade de perdoar qualquer ,seja o que quer que tenham feito,como quando me sequestraram e fizeram dois grandes cortes em minhas costas apenas por diversão,para me verem sangrando,gemendo,gritando,arrastando-me pelo chão,agonizando,enquanto assistiam tudo e ficavam excitados com isso. Não culpo os homens,a guerra é que os transforma em animais ferozes,os transformam no que realmente são.

Alguém tocou meu ombro esquerdo,era aquele garoto querendo se desculpar por ser tão rude,eu disse que tudo bem,apenas segurei em sua mão e comecei a guiá-lo para um lugar que eu conhecia bem.

A lápide ainda estava sendo tocada pelo frio sol do outono,mas estava fria,eu me sentei nela,ele estava lá,parado,sem saber o que aconteceria,eu era uma garota de vestido,bonita,que sentia pena de qualquer um...Eu chorava,retirei meu vestido, e me deitei sobre a lápide. Não me importava que visse o que estava por todo o meu corpo. Então fiquei ali,esperando que fizesse alguma coisa,enquanto ele,assustado,estava imóvel,assustado:

-Não tenha medo,pois eu também estou sozinha,mas não tenho mais medo!

Olhei para o sol fraco,que cobriu minha face. O garoto tocou minha barriga com suas mãos,alisando os cortes,que ainda ardiam um pouco, olhei para as estátuas góticas que me faziam sentir melancólica,havia meses que minha pele não ardia daquela forma,como se estivesse gritando.

Eu chorava com o sol sobre o meu rosto,

Aquele garoto não me amava,

Mas tocou-me após o entardecer,

E meus cortes arderam...

 
 
 

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