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A DANÇA DOS PEIXES

  • Foto do escritor: Lucas Antero
    Lucas Antero
  • 23 de set. de 2015
  • 4 min de leitura

Carlos acordara cedo,ainda estava escuro,era por volta das três da madrugada,as sirenes de polícia o fizeram despertar.Se levantou,esfregou os olhos ainda pregados,a garrafa de whisky ainda estava sobre a cabeceira da cama, abriu a cortina,abriu um pouco a janela e olhou lá para baixo,uma multidão estava em volta de um corpo que havia acabado de se jogar,a chuva que caía juntamente com os trovões não amedrontava as pessoas curiosas que tiravam fotos enquanto os policiais tentavam conte-la.Carlos fechou a janela e a cortina,ligou seu toca discos, pegou o giz de cera e começou a escrever na parede,coisas que somente ele entendia,números,frases,versos conectados por preposições conhecidas somente por ele,depois de cerca de vinte e cinco minutos parou de escrever,jogou o giz de cera no chão e jogou-se na cama ficando a olhar o ventilador com espátulas de madeira que girava no teto azul de seu apartamento.O toca disco parou,ele começou a escutar a chuva que iá contra a sua janela,o barulho das sirenes cintilava com menas intensidade em sua cabeça,um silêncio profundo e perfeito estava naquele quarto escuro.

"Os dias percorrem como loucos,ah mundo insano em que o sanatório somos nós". Carlos terminara de escrever essa frase na parede,bem ao lado do acontecimento da madrugada passada que também havia gravado la.Jogou novamente o giz no chão como havia feito na noite passada,foi até a cozinha,abriu a geladeira e pegou a garrafa de whisky e começou a tomar direto do gargalo,caminhou de volta para seu quarto,ficou inerte frente a porta, a observar tudo o que havia escrito na parede,uma certa agonia,maior do que todas as outras que havia sentido,tomara conta de seu coração naquele momento.Tomava um gole da bebida cada vez em intervalos menores,seus olhos aflitos a fitarem os acontecimentos descritos nas paredes brancas,não mais daquela cor,pois estavam totalmente marcadas com aquelas palavras,que agora lhe afligiam a alma.Carlos começou a ficar zonzo, a cambalear,até que caiu sobre o tapete ao lado de sua cama,desacordado.

O dia seguinte,era uma manhã de segunda-feira,Carlos acordara com dores em sua cabeça,a garrafa de whisky havia se quebrado,o liquido derramado sobre o tapete e o barulho das buzinas de carro o faziam quase desmaiar novamente,olhou no relógio,eram oito e meia,logo as onze horas ele teria que estar na universidade.Levantou-se ainda meio cambaleando e começou a andar pelo corredor em direção ao banheiro;todas as paredes pelo corredor estavam escritas,Carlos não lembrava-se se havia escrito tudo aquilo,ele só se lembrava de que havia bebido demais e apagado sobre o tapete,mais nada,a noite passada era apenas uma mancha cinza em sua cabeça.Mesmo assustado,continuou a caminhar até o banheiro,abriu a porta de madeira,e as paredes do banheiro também estava todas escritas,sua caixa de giz de cera estava no chão,ele olhou para suas mãos que estavam manchadas,deu um passo para trás como se não quisesse acreditar que havia feito tudo aquilo.

Caminhando pelas ruas,em direção ao parque,Carlos estava atento,ele sempre fazia aquele percusso para ir a universidade,olhou em seu relógio de pulso,eram dez e vinte,apertou o passo,chegou a trilha do parque,corredores já se alongavam,a brisa daquela manhã fria de primavera soprava o cabelo de uma corredora que passara bem a seu lado,continuou a caminhar,acelerou mais uma vez seus passos,até que se afastou da multidão,a brisa fria soprou mais uma vez,um silêncio soturno tomara conta,só se escutava o barulho das folhas a serem chaqualhadas pelo vento.Carlos parou de caminhar,teve a sensação de estar sendo seguido,olhou para trás,e não avistou ninguém,olhou em meio aos ipês,parecia conseguir ver a sombra de duas garotas a brincarem em meio a grama verde e os ipês floridos,esfregou seus olhos,pareceu escutar também risadas femininas,desviou seu olhar novamente para trilha e continuou sua caminhada em direção a universidade.

Era final de tarde,Carlos chegava em casa depois de uma palestra massante que havia feito na universidade sobre a liberdade em Sartre.Jogou sua bolsa sobre a cama desarrumada e foi tomar mais um banho,a caixa de giz de cera ainda estava jogada no chão do banheiro,entrou,fechou o box,ligou o chuveiro e fechou os olhos.Pensamentos passados vieram em sua cabeça,pensamentos sobre sua família,pensamentos sobre seus amores,começara a se recordar da vez em que estava em sua adolescência,por volta de seus dezesseis anos quando começara a não acreditar em mais nada,quando nada mais começara a fazer sentido,a ser real,e o que lhe sobrara somente era escrever os fatos sobre as paredes de sua casa para que aquele se tornasse seu mundo,para que ele pudesse saber de tudo mas não fosse necessário participar desse mundo de loucos insanos,um mundo em que não houve e nunca haverá um sentido verdadeiramente correto,onde as vezes tudo torna-se somente sonhos,e sonhos se tornam esperanças,que se tornam agonias,com algumas realizáveis e outras não e tudo se torna apenas vivência que carregam os dias até o momento de se findarem a morte iminente,e não importa pra onde corramos,de uma forma ou de outra iremos voltar para nosso lugar de origem,de qualquer forma no final iremos voltar no começo pra que tudo venha se findar,e no final somos como peixes que dançam em um aquário,de alguma forma ou de outra,não importa a forma como eles dancem,eles vão voltar para os mesmos lugares.

Carlos desligou o chuveiro,vestiu suas roupas,pegou a caixa de giz de cera espalhada pelo chão do banheiro,foi até a sala,escreveu seus pensamentos na parede atrás de sofá de couro,jogou o restante do giz pela janela e voltou para a dança neste aquário em que o mundo é,e nós peixes vivemos como se fossemos donos..


 
 
 

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