O que dizem os ventos de agosto
- Lucas Antero

- 28 de ago. de 2015
- 5 min de leitura

Nós estávamos descalços caminhando na areia, eu olhava nos olhos dela, ela olhava nos meus,naqueles instantes tão breves não sabíamos o que fazer, apenas estávamos caminhando, nem sequer tínhamos coragem de dizer algo um para o outro, mas nossos corações, eu sentia, estavam a mil, como se aquele silêncio estivesse nos matando, em minha mente, um milhão pensamentos sobre as possibilidades que poderiam acontecer naquele instante.
A maré estava calma, aquele silêncio, por fim comecei a gostar dele, não sei se ela também estava gostando, e como aprecio qualquer silêncio,mesmo que alguns cheguem a quase nos matar. Era final de tarde e o clima estava ameno, e como eu conseguia escutar coisas do mar enquanto caminhávamos. Sabíamos que aqueles instantes poderiam ser cessados pelo fim de tudo.
O ano era dois mil e dezessete, não havia ameaça de guerra, apenas havia uma ameaça de silêncio do colapso total da humanidade, onde uma neblina viria da direção dos mares, lançada pelas árvores de uma ilha distante e tudo estaria acabado, não queríamos uma fuga dali, não queríamos nem sequer lutar, sabíamos que eramos culpados e deveríamos acabar de tal maneira.No começo pensávamos que era somente a nossa região, mas depois descobrimos que era toda a humanidade que corria esse risco, talvez assim seja melhor, todos morrermos sem dor alguma, apenas por tudo que a humanidade faz consigo mesma, esse discurso foi repetido pelos cientistas e militares que tentaram,sem sucesso,de todas as formas,acabar com essa ameaça,qualquer um que se aproximasse daquela ilha, entrava em sono profundo, em qualquer sentido, até por debaixo, no mar, vários nadadores morreram assim, enfim, estávamos novamente a merce da natureza.
Gabriele por fim olhou para mim, mesmo assim não disse uma palavra sequer, eu gostava daquele jeito estranho de dizer algo somente com o olhar,a cor de seus olhos era um castanho tão intenso que qualquer um se perdia em seu olhar,sua pele tão branca que quando nua em um dia dia inverno, conseguiria se camuflar sem problemas. Eu sentia que aquele olhar era um sinal de que ela queria dizer alguma coisa, mas esperava que terminasse com meus pensamentos primeiro. Não sei ao certo, mas acho que meu silêncio a matava as vezes, tanto por não dizer uma sequer palavra de ofensa a ela, tanto por não brigar com ela, por não querer discutir com temas banais que somente atrapalhariam nossa relação, não que nossa relação não fosse enérgica, mas pela minha forma de fazer as coisas especialmente silenciosas talvez fosse o que estivesse matando-a lentamente, como um solavanco inesperado por fim ela disse:
-Para onde estamos guiando nossas vidas Lucas?
-Eu não sei ao certo te dizer Gabriele Apenas sabemos que estamos caminhando!- Respondi serenamente.
-Eu apenas quero saber onde vamos chegar com tudo isso, na verdade onde queremos chegar com tudo isso. Parece as vezes que o mundo é essa coisa que nos oprime tanto por tomarmos uma decisão, que nos julga, e quando estamos perto de conseguir alcançar um sonho, não podemos festejar nem sequer um pouco por que parece que existe um espião do destino que nos observa incessantemente para por fim fazer-nos decepcionar facilmente
Eu não sabia o que dizer, as vezes tenho o mesmo pensamento que o dela.
-Eu não sei o que dizer Gabriele … O que.. O que eu posso dizer é que verdadeiramente as vezes não sei para onde estou indo.- Foi o que consegui dizer, enquanto tentava proteger meus olhos da areia trazida pelo vento, Gabriele fez o mesmo.
-Eu queria ter ao menos uma vez, a certeza de que somos “algo”, de que fizemos alguma coisa para demonstrarmos que somos ,ou fomos alguém.
-Não quero iniciar um discurso filosófico, mas… se sua vida se basear em demonstrar para as pessoas uma coisa que elas queriam que você fosse, eu diria que você não esta vivendo, ou que está vivendo em uma mentira.
-Então você prefere o tempo todo agradar a si mesmo e ser odiado pela maioria das pessoas?- Ela jogou a isca, ela queria iniciar uma briga.
-Talvez toda escolha tenha sua consequencia, e basta aceitarmos ela ou não.
-Você está me dizendo que existem coisas certas a se fazer e ficar isolado do mundo e conhecer poucas pessoas a ponto de namorar uma delas é uma escolha certa?-Ela não desiste mesmo.
-Nem certa,muito menos errada,como eu disse, essa escolha tem consequências,e talvez estarmos brigando agora seja uma delas.- Eu percebi que ela queria xingar até o ultimo fio de cabelo de minha alma,mas não fez isso.- Por isso podemos fazer escolhas sempre,mudar, se adaptar, e suas consequencias nos dirão se foram boas ou ruins. Eu faço minhas escolhas, sorrio e sofro com elas.
-Eu sei o que você esta querendo dizer,que a vida é um ciclo e sorriremos e choraremos independente se quisermos mudar isso, não vamos conseguir.
Apenas meneei a cabeça,Gabriele olhou para seus próprios pés descalços na areia,alisou sua barriga nua e sarada,ajeitou seu cabelo e me perguntou:
-Você me acha gorda?
-O que?
-Você me acha feia?
-Não! Mas porque você está perguntando isso?- Eu disse,constrangido.
-Você sabe muito bem porque!
Eu respirei fundo, a brisa agora estava mais fraca,não haviam ninguém na praia,somente nós dois, aquela tarde parecia tomar um ar excepcionalmente maravilhoso, e não queria fazer isso com Gabriele ,mas por fim eu disse:
-Talvez eu não sirva pra você Gabriele! não mais.
Foi ela quem fiou em silêncio dessa vez, eu via que ela queria chorar,mas o que eu podia fazer, eu não queria ficar com ninguém.
-Você não pode fazer isso comigo Lucas, você não pode fazer isso consigo mesmo!-Disse, começando a chorar.
-Não Gabriele, eu não sirvo para namorar ninguém,tão menos me casar,ficar,ou outras coisas que esses jovens andam fazendo,mesmo que eu tenha vinte anos de idade, eu não me interesso por fazer certas coisas que eles fazem.- Eu respirei fundo.- Mas você é muito linda,atraente, e cai entre nós, é muito gostosa, e pode fazer o que quiser e ter o que quiser..
-Mas talvez eu queira com você…Quero passar esses dias eufóricos do final de tudo com você -Disse ela, me interrompendo.
-Não Gabriele, eu não gosto de prender as pessoas a mim, para que elas sofram, eu não gosto de ferir as pessoas, elas podem até me ferir,mas eu não quero ferí-las!
-E você me deixando estara me ferindo!
-Pelo contrário, estarei te livrando do silêncio que esta te matando a cada dia um pouco por dentro… Com o meu silêncio, só eu aprendi a lidar, eu sinto muito!-Eu disse,parecendo querer chorar também.-… Adeus e boa sorte Gabriele!
Ela desabou de joelhos na areia,chorando.Era a ultima vez que eu veria seu rosto,seus cabelos negros,sua pele tão macia e seus lábios que nunca usaram batom,porque eu gostava de seus lábios naturais.
Um vento soprou novamente,anunciando o pôr do sol, eu olhei para o céu tão calmo,tão laranja,tão distante de todas as formas que se encontravam no chão,tão surpreendentemente um desejo de todos, e eu estava caminhando na praia,desejando agora ser apenas um sonho que Gabriele teve.Peguei meu caderno de anotações que sempre deixo no bolso da calça,escrevi algumas coisas enquanto caminhava:
“Sob a ameaça constante de um sono profundo causado pela neblina que possa vir quando bem entender,dizer adeus é uma coisa tão ridícula, e também tão dolorosamente cortante...Eu caminhava pelas areias tão próximas do fim, eu precisava de algo para esquecer brevemente aquele adeus,eu precisava de algum som para saber que tudo está se tornando Mono No Aware, eu precisava escutar algo,não de uma pessoa,mas de uma coisa, e por fim,depois daquele adeus, eu comecei a escutar o mar, e todas as coisas que ele tinha para me ensinar…”






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