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Os suspiros incandescentes dos caranguejos.

  • Foto do escritor: Lucas Antero
    Lucas Antero
  • 19 de ago. de 2015
  • 4 min de leitura

Não sei se realmente gosta de suas memórias, eu gosto das minhas, bom, ao menos de algumas delas, aquelas que vem quando você escuta uma musica que a muito tempo não escutava e enfim ela traz aquela sensação nostálgica que tudo deixa com ar de passado.

Eu andava pelo parque em um dia chuvoso, as nuvens densas sopravam segredos e eu pisava no cascalho molhado, eu parecia ver vultos, talvez fosse loucura minha, continuei a caminhar em direção ao escorregador e olhando para baixo, mais especificamente para minhas botas vermelhas, eu gostava daquelas botas, não só porque elas faziam um barulho interessante ao tocar o cascalho, aquelas botas meu irmão as havia dado a mim no meu aniversário de treze anos de idade, e veja só, passaram-se dois anos e a bota ainda me cai como uma luva. Parece que havia sido ontem meu aniversário de treze anos, meu cabelo ainda estava curto pintado de loiro, eu brincava com o klark, nosso Dorberman de estimação, no gramado de nossa casa, eu fazia bolhas de sabão enquanto ele tentava mordê-las, eu as fazia cada vez mais altas e ele pulava cada vez mais alto para tentar pegá-las, eu sorria e ele com seu latido demonstrava que também estava contente por estar brincando comigo logo no dia mais especial de minha vida.

Todos estavam em minha festa, o fraco sol de inverno pintava o gamado fazendo o orvalho que caíra a noite passada brilhar. Meu irmão, quatro anos mais velho do que eu, após terminar de fazer suas vinte e cinco pedras lisas ricochetearem sobre o lago de águas verdes próximo a nossa casa, veio até mim e me deu essas botas enquanto sorria verdadeiramente como se estivesse me entregando uma barra de ouro, e igualmente eu sorri. Engraçado, todo ano ele fazia isso, juntava as vinte e cinco pedras lisas e pequenas e no meu aniversário as arremessava no lago, aquilo já havia se tornado um ritual: Meu vestido de flores azuis, pés descalços sobre a grama, meu pai fazendo churrasco, minha mãe conversando com suas amigas e meu irmão arremessando as pedras no lago, bem, certas coisas deveriam existir eternamente.

E aqui estou eu, dois anos depois, pisando sobre o cascalho do parque e não consigo encontrar nenhuma pedra um pouco parecida com as que meu irmão pegava, me sentei no final do escorregador, olhei para o cascalho novamente e quis chorar.

-Continua baixinha como sempre não é mesmo Clarice!

Eu conhecia aquela voz.

-Irmão é você ?

-Claro que sim maninha! Quem mais seria?- Disse ele, sorrindo para mim, aqueles cabelos lisos e ruivos eram sua marca, fora seus olhos azuis.

-Eu pensei que você não viria mais aqui no parque...

-E por que eu faria uma coisa dessas, por que eu não viria mais aqui Clarice?

-Sabe... depois de tudo que aconteceu e do que papai disse.

-O que que ta pegando maninha?

-Sabe, as vezes nem eu mesma sei! Eu disse, começando a chorar. – Tudo está tão diferente, eu agora tenho somente fotos do Klark na parede, você não vem mais jogar as pedras no lago nos meus aniversários, você nem ao menos as junta para mim!

-Mas por que...- Engoliu seco- Pensou que eu não voltaria ao menos uma ultima vez?

-Porque me obrigaram a tomar todos aqueles remédios, eu não gosto de toma-los Joey!

-Você ainda anda escrevendo Clarice?

-E porque diabos eu ainda escreveria? Perguntei, enxugando algumas lágrimas com a ponta de minha blusa.

-Apenas continue escrevendo! – Disse ele, erguendo os ombros sob aquele casaco de couro.

-Vou tentar!

-Você promete pra mim?

-Acho que sim... Mas por que escrever agora, se sei que ninguém mais vai ler?

-Existem certos rascunhos que não precisamos mostrar a ninguém, porque devemos guarda-los em nosso relicário, ou pendurar em nosso varal secreto para que se esvaeçam.

-Sendo assim, para que tudo isso vá embora, eu precisaria no mínimo de quinhentos anos de vida para escrever tudo isso.- Mesmo chorando tentei ser sarcástica.

-Mas você me promete que vai tentar?

-Ta tudo bem, eu prometo! Mas eu sinto sua falta Joey! Disse, começando a chorar descontroladamente.

-Maninha, não chore, eu sei de uma coisa, tudo vai se endireitar!

-Mas o papai está diferente!

-Diferente como?

-Sabe, depois que você partiu, ele pediu desculpas e disse que havia um monstro dentro dele.

-Eu sei, nós dois sabemos disso, mas devemos perdoá-lo por isso, naquele momento ele era apenas um idiota bêbado com uma arma na mão!

-Verdade!- Eu disse, parando de chorar.

-Agora olhe para essa pedra! –Disse, apontando para um pedra redonda e branca bem perto das minhas botas. –Essas pedras são iguais aos caranguejos perto do lago.

-Serio mesmo?-Eu perguntei, sorrindo.

-E alguma vez eu já cheguei a mentir pra você?

-Acho que não!

-Pois então, esses “caranguejos-pedra” são assim para os predadores os confundirem com pedras ao invés de um animal, e assim alguns sobrevivem!

-Nossa!

-Sabe o que eu acho...Que você é como esses caranguejos...E você vai sobreviver! –Disse ele, sorrindo para mim, enquanto o vento fazia seus cabelos ruivos voarem

-E o que eu faço agora com essa pedrinha?- Perguntei, assim que a segurei nas mãos.

-Va até o nosso lago e a arremesse do jeito que eu lhe ensinei.

-Tudo bem!- Eu disse me levantando alegremente.

-Ah,e vê se encontra por aqui todos os dias, você sempre tem que treinar duro para um dia conseguir que seus arremessos atravessem o lago, e quando conseguir, terá se tornado uma profissional de arremesso de pedras no lago

-Mas Joey, eu te verei outra vez?

-Acho que não!

Mas por que não? Eu posso parar de tomar os remédios!

-Você tem que tomar os remédios para ficar boa Clarice!

-Mas eu não vou te ver mais! - Disse, começando a chorar.

-Lembre-se de mim quando estiver fazendoos arremessos!- Disse, sorrindo. – Mas não se esqueça, nunca confunda os caranguejos com uma pedra!

Todos os dias depois de meus remédios e meu café da manha eu ía para o lago arremessar minhas pedras a cada arremesso eu me lembrava de meu irmão, e sabe, eu estava ficando boa nos arremessos, talvez até melhor que ele, sabe, eu estava ficando boa em ser um “caranguejo pedra”, eu sabia que iria sobreviver, hum, eu sou uma caranguejo pedra!


 
 
 

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