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A aurora da pós-modernidade.

  • Foto do escritor: Lucas Antero
    Lucas Antero
  • 12 de ago. de 2015
  • 4 min de leitura

Eu olhei para aquelas estrelas que estavam distantes, depois que sai da porta de minha casa, certamente era apenas um sentimento passageiro de raiva e vontade de apenas esvaecer por um tempo fora de casa, o que poderia sentir mais se não um sentimento de solidão tão confortante quanto estar cercado pelos meus inúmeros livros?

...Cheiro de café, cheiro de livro novo, cheiro de chuva, o vento frio de inverno e sua dor pontiaguda, como eu poderia abdicar de todos esses sentimentos e viver uma vida de responsabilidade familiar tão intensa? E por que não viver despretensiosamente uma vida sem muitos erros e muitos acertos?

O dia estava tão estranho, eu não sentia absolutamente nada, nem mesmo o tedio ou a melancolia de sempre, nem mesmo sentimento de morfina que tanto acalma minha alma, eu andava por uma rua qualquer não valia nem mesmo o nome ressaltar, ela inda estava molhada da ultima chuva de inverno, eu olhei para meu reflexo na poça, eu tinha tantas pretensões, tantos planos apenas para me sentir realizado, sentei-me no banco da praça, havia cansado de caminhar, cansado de deliberar sobre o que deveria ser em minha vida, sobre como eu deveria agir, sobre quais são meus valores, afinal o que são realmente valores morais? Se cada um de nós tem algum tipo de valor moral não existe moral verdadeira? Não sei se também quero acreditar tanto assim na metafísica, ela é um corpo estridente, constantemente revolucionado por argumentos contrários, e tantas outras vezes quero acreditar na metafisica, porque afinal de contas o homem precisa acreditar em alguma coisa, o homem precisa ser alguma coisa; as vezes eu sou, aquele que fica enfurnado em seu quarto redigindo um imenso texto que fica odiando por alguns minutos, ou talvez horas, para depois publicá-lo e receber algumas críticas, depois receber algum dinheiro por essa publicação, ou talvez seja aquela que trabalha em um escritório e durante o tempo que me resta no resto do dia, eu escreva para depois de alguns meses, ou anos, eu publique o meu livro e por algum tempo depois ter sua autoestima elevada pela publicação de tal livro. Eu nunca deixei de me perguntar, o que fazemos aqui?

A tarde caia, a temperatura diminuía, eu não estava de blusa, nem sequer me preocupei com que o frio pudesse ser tão forte naquela hora do dia, viver sem pretensões também tem seu preço. Alguém me sorriu ao longe, não me lembrava se conhecia essa pessoa ou não, apenas acenei, percebi que ela queria vir até mim, eu tinha duas opções, ou ficar e conversar, ou sair andando e fingir que não havia percebido que ela se aproximava, as vezes não gosto de conversar com as pessoas, apenas com meus pensamentos, o mal as vezes é estar nos outros. O vento soprou, senti um intenso cheiro de perfume, quase completamente eu tinha certeza de que era o perfume dela, meu coração começara a palpitar mais forte, eu não sabia o que fazer, muito menos como agir.

Eu conhecia muito bem aquele perfume, era o perfume de Camila, e quem é Camila? Vocês já ouviram falar de se apaixonar, bem é tudo que precisam saber, e precisam saber algo mais, que não deu certo porque eu disse que estava apaixonado tarde demais. Quando a garota chegou mais próximo eu pude ver, não era Camila, eu não sabia naquele instante se respirava de alívio, ou se ficava desapontado. Ela sentou-se ao meu lado, cumprimentos de pessoas conhecidas normais, e por fim ela me perguntou:

-O que faz aqui?

-Bem, vim passear um pouco! – Respondi sorrindo.

-Eu também!- Respondeu animada. -Mas que cara é essa?

-Bem...

-Já sei, eu vi ela passando por aqui, por isso você está assim!- Disse ela, ainda sorrindo e dando pequenos cutucões em meu ombro.

-Mas isso não é relevante, me diga, como está?- Eu tenho uma capacidade imensa de fingir querer puxar assunto, quando na verdade quero que a pessoa saia logo, mas afinal de conta, as vezes, todos fazemos isso.

-Eu estou ótima, eu consegui arrumar um ótimo emprego...

Eu fiquei ali, por dez minutos escutando ela falar, falar e falar, tanta mentira, que até o maior mentiroso sentiria vergonha, fiquei surpreso como as pessoas podem dizer tanta mentira para com os outros só para mostrar que estamos bem, só para tentarmos de alguma forma sermos melhores que o mundo, acho repugnante também como convivemos uns com os outros, como temos a intensa relação de ciúme com o que não é nosso, com as realizações dos outros, como temos em nossa mente, como quase em nosso código genético, a grande ilusão de sermos uma pessoa, esse foi um dos grandes erros da evolução natural, a de termos consciência. Sabe, as vezes tenho vontade de ser como as outras pessoas, mas só de observar como elas enganam a si mesmas, prefiro ficar sozinho e participar a parte de toda essa loucura.

-Então- Disse ela, finalmente.

-Nossa muito bacana!-Eu disse, sem ter ouvido uma palavra sequer.

Ela me abraçou e agradeceu por ter ouvido tudo aquilo sem reclamar, me deu um beijo no rosto, levantou-se e saiu andando. Um Jardineiro que estava ali perto de nós dois, se aproximou e disse:

-Você conhece essa moça? Ela vem aqui todos os dias, e fica por muito tempo, até mais ou menos esse horário, e depois vai embora, acho que era esperando o senhor. Ela trabalha ali naquele grande prédio, todos os homens tentavam conversar com ela, mas ela nem ligava, agora vou avisar pra eles, que ela tem dono.- Disse ele, sorrindo.

-Meu senhor, eu nunca vi essa mulher na minha vida! – Eu disse por fim verdadeiramente.

-Não brinca!- Disse espantado.

-Falo toda a verdade do mundo.

-Então o senhor é um homem de sorte!

-Eu não diria sorte meu amigo.-Eu disse sorrindo.

Ele sorriu por alguns segundos e voltou a trabalhar. Me levantei, espreguicei, e recomecei minha caminhada para casa. Hum, “Homem de sorte”, pobre jardineiro, por isso acho as pessoas engraçadas. Eu realmente não conhecia aquela garota, pouco me importava se ela trabalha na central de uma multinacional, ela acenou e me sorriu, bem, sem as pessoas fossem menos interesseiras em status e dinheiro, e sorrissem, acenassem mais, o mundo ainda teria uma chance... Bem, mas esse é um sonho altruísta, e poucos são capazes de querê-lo verdadeiramente.

 
 
 

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